Rankings acadêmicos são ferramentas de marketing, não de avaliação 

Pesquisador André Dutra Martins diz que universidades brasileiras usam essas listas de modo oportunista e isso compromete sua relação com a sociedade

Martins faz pós-doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP //Arquivo pessoal
Martins faz pós-doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP //Arquivo pessoal

Resultados de rankings acadêmicos são divulgados a todo momento e as universidades brasileiras lidam com seu desempenho nessas classificações sempre da mesma maneira. Quando o resultado é bom, vangloriam-se publicamente. Já se perdem posições, preferem não fazer alarde ou então ponderam que essas classificações têm limites e não devem ser tomadas ao pé da letra. Mas, afinal, o quanto os rankings de fato medem a qualidade das universidades? E como as universidades vêm mudando suas práticas para melhorar a performance em rankings? Perguntas desse tipo estão no horizonte das pesquisas do economista André Dutra Martins, que há tempos investiga como o desempenho em rankings acadêmicos modula a forma como universidades se comunicam com a sociedade e são vistas por ela. 

Sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) em 2024, mostrou como os rankings estimulam a criação de uma identidade competitiva nas universidades e contribuem para impor uma racionalidade de mercado nas suas relações com o público, em substituição ao diálogo que deveriam manter com as demandas da sociedade. Orientada por Gladys Beatriz Barreyro, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, a USP Leste,  a pesquisa venceu o Prêmio Capes de Tese de 2025 na área de educação, ao avaliar os usos e efeitos dos rankings acadêmicos na administração de duas universidades estaduais públicas brasileiras, a USP e a Estadual de Campinas (Unicamp), e de duas norte-americanas, as da Califórnia em Los Angeles (Ucla) e em Berkeley (UC Berkeley). Agora, em um projeto de pós-doutorado recém-iniciado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Martins vai analisar dados de redes sociais para compreender como as pessoas interagem com as instituições quando elas divulgam suas posições nessas listas.

Na entrevista concedida à revista Poraquê, ele explica que, nos Estados Unidos, rankings são vistos apenas como ferramentas de marketing, enquanto no Brasil há quem os considere como instrumentos de avaliação. Também afirma que as universidades brasileiras, ao fazerem uso oportunista de seu desempenho nessas listas, caem em uma espécie de armadilha: conferem legitimidade para os critérios adotados pelas classificações e ficam vulneráveis a cobranças até por oscilações de desempenho sem importância estatística.

De que forma as universidades brasileiras e norte-americanas que você analisou têm abordagens diferentes sobre o valor dos rankings acadêmicos? 
Há uma experiência comum, que é o fato de rankings serem ferramentas populares em ambos os países. Fui pesquisador visitante na Ucla por dez meses. Quando cheguei, o campus estava repleto de publicidade com os resultados do principal ranking de divulgação nacional nos Estados Unidos, que é o da revista U.S. News & World Report. Também me lembro que, na USP, quando voltaram as atividades presenciais após a pandemia, na primeira Feira de Profissões, distribuía-se um folder que destacava a posição da universidade em uma classificação internacional. Mas há diferenças importantes. Distintamente do que acontece no Brasil, o modelo de avaliação da educação superior nos Estados Unidos é centrado em agências de acreditação, consórcios de instituições de ensino superior que atribuem a elas uma espécie de selo de qualidade. Na falta de um instrumento público para orientar a escolha dos estudantes, os rankings aproveitaram essa oportunidade de mercado e se popularizaram.

A posição de uma instituição nos rankings diz muito pouco ou quase nada sobre a sua qualidade

E no Brasil?
Aqui, a história é muito diferente. Tivemos um primeiro ranking, que era publicado pela versão brasileira da revista Playboy. Também surgiu na década de 1980, como o da U.S. News & World Report, mas enquanto o norte-americano despontou e não parou de crescer, o brasileiro caiu em desuso. Na década de 1990, o governo criou o Provão, que prometia ranquear as universidades a partir da nota dos estudantes formados, que depois inspirou parte do que hoje é o Enade [Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes]. No Brasil, o Estado tomou para si essa missão de avaliação das instituições de educação superior. Outra grande diferença é que, nos Estados Unidos, como esses rankings têm uma dinâmica muito mercadológica, são usados como instrumentos de marketing. Isso eu ouvi de uma profissional da administração da UC Berkeley: a divulgação do desempenho em rankings priorizava o que rendesse a melhor manchete. Se a instituição está no top 3 em uma lista, isso tem mais valor do que se estiver no top 10 em outra. Já no Brasil, existiu um movimento, protagonizado pelo projeto Métricas, coordenado pelo ex-reitor da USP Jacques Marcovitch, de tentar assimilar, criticamente, aquilo que os rankings traziam de informação. O discurso do projeto era: “Sabemos das fragilidades metodológicas, mas, considerando essas fragilidades, o que se pode aproveitar de informação desses rankings?”.

Na prática, qual foi o efeito dessa abordagem? 
Apesar da tentativa de fazer esse tipo de análise e trazer insumos para pensar o planejamento acadêmico, o que mais se vê nas universidades brasileiras é um uso oportunista e estratégico dos resultados em rankings. Vou pegar um exemplo que cito na tese: na gestão de um reitor da USP, houve um momento de crise institucional com muita contestação das medidas adotadas de ajuste financeiro. Nesses momentos, o reitor fez uso dos rankings nas reuniões do Conselho Universitário para defender sua gestão, atrelando a posição da USP ao sucesso das políticas implementadas. No entanto, nesse mesmo período, ele deu uma entrevista para o Jornal da USP dizendo que rankings não tinham importância, que a USP não ia perseguir bons resultados. A diferença talvez seja que, nos Estados Unidos, há um uso conscientemente oportunista em termos de marketing. Como a educação superior pública no Brasil é menos atravessada pela lógica de mercado, a USP não faz campanhas de marketing usando rankings. Mas há um uso oportunista dentro da política universitária, seja nas reuniões do Conselho Universitário, seja na interlocução, por exemplo, com o governo estadual.

E qual é o impacto disso? Quais os efeitos dentro da universidade?
Essa pergunta é muito mais difícil de ser respondida do que parece, mas ela é fundamental. Quando eu fiz a revisão dos artigos e pesquisas do Brasil sobre rankings, me incomodou o fato de a literatura superestimar os efeitos do ranqueamento sobre a vida institucional da universidade. A verdade é que as universidades não estão reorientando prioridades e estratégias para ganhar posições nos rankings e há uma razão clara para isso. Não se pode esperar um aumento substancial nos indicadores de internacionalização, porque existem limites estruturais que se colocam para a universidade pública brasileira: exigência de gratuidade mútua em parcerias internacionais, oferta de disciplinas em língua estrangeira etc. Dito isso, se percebe algo, a meu ver perigoso, na relação da universidade com a sociedade. O uso oportunista confere legitimidade para essas classificações.

Como assim?
Eu cito um caso que talvez seja o mais interessante da minha tese, que é das interlocuções do Tribunal de Contas do Estado [TCE] com as universidades estaduais paulistas. Por um longo tempo, o tribunal rejeitou a prestação de contas das universidades. Certa vez, o TCE questionou a USP por ter tido uma queda em posições de rankings, embora seu orçamento tivesse aumentado. Esse fato, por si só, já é preocupante, porque submete a universidade a um escrutínio externo que tem objetivos alheios à sua missão pública. Mas o caso é ainda pior, porque, quando a USP questionou a objeção, a resposta do Tribunal foi elucidativa sobre os perigos do uso oportunista. O tribunal disse mais ou menos o seguinte: a universidade reiteradamente divulgou o seu desempenho em ranqueamentos diversos para defender o seu compromisso com a excelência. Diante de uma queda nessas mesmas classificações, agora ela pretende deslegitimar o uso para avaliar a sua qualidade? Esse é o grande risco que os rankings colocam. Eles podem moldar como a sociedade vê a universidade. Muitas pesquisas colocam as universidades um pouco como vítimas dos rankings. Na verdade, parte substantiva da legitimidade das listas vem do uso que as próprias universidades fazem. 

Parte substantiva da legitimidade dos rankings vem do uso oportunista que as universidades fazem deles

Qual é o problema em levar a sério as oscilações que rankings apresentam de um ano para outro?
A maior parte dos rankings classifica as universidades através de uma medida estatística chamada escore Z. Ela avalia quantos desvios padrão o valor de cada instituição está acima ou abaixo da média do grupo. Quando se faz esse tipo de padronização, todas as universidades são colocadas dentro de uma distribuição normal, modelo estatístico em formato de sino que descreve como valores de um fenômeno se agrupam ao redor de uma média. Na distribuição normal, os valores ficam mais concentrados próximos da mediana [valor que separa a metade maior e a metade menor de uma amostra]. A diferença da instituição que está na posição 80 para aquela que está na posição 84 é mínima. Com isso, a classificação pode oscilar de um ano para o outro sem que nada importante tenha mudado. Isso pode dar uma ideia de piora ou melhora em uma magnitude que não é real. Por exemplo, em 2024, a USP celebrou efusivamente a sua 85ª posição no QS Ranking. Agora, ocupa a 133ª posição. Quem conhece a universidade, sabe que não houve nenhuma oscilação real de qualidade nesse período. O que eu quero dizer com isso é que a posição de uma instituição nos rankings diz muito pouco ou quase nada sobre a sua qualidade. E a forma como é feita a divulgação, seja no uso oportunista ou na manchete de jornal, é sempre centrada na posição. Em um momento como o atual, em que a universidade vive uma crise de legitimidade, ela precisa criar canais de comunicação com a sociedade sólidos e robustos. Mas o que temos visto é uma confiança significativa justamente na mais frágil das métricas que possui para comunicar o cumprimento de sua função pública.

Há movimentos recentes em rankings internacionais, como a ascensão das universidades chinesas. As instituições americanas estão preocupadas com isso?
A China foi responsável pela criação de um grande ranking internacional. O chamado Ranking de Xangai foi criado em 2003 com um objetivo estratégico de política pública. Qual era o objetivo? Criar uma versão chinesa da Ivy League, que é o grupo das oito universidades de maior prestígio dos Estados Unidos. A ideia do governo chinês era criar nove instituições de altíssima reputação e produção científica, concentrando grandes talentos e volume de recursos. Isso deu resultado e essas instituições hoje ocupam o topo de muitas listas globais. O Ranking de Xangai transformou a Ivy League em um conjunto de critérios e essa avaliação passou a subsidiar a política de educação superior na China. Com o volume de investimento público que existe na China, era esperado esse crescimento. Nove universidades chinesas se aproximaram das instituições de elite dos Estados Unidos. Mas isso não parece ser uma preocupação para as universidades americanas, que ligam pouco para listas internacionais. Do ponto de vista externo, já têm uma vantagem competitiva, porque os Estados Unidos estão no centro da produção do conhecimento global. 

Aqui no Brasil, também há rankings nacionais. Eles têm peso?
Aqui, os rankings internacionais têm mais peso. Uma universidade como a USP não se preocupa com sua posição na educação superior brasileira, porque tem plena convicção de que ocupa o topo. Recentemente, a USP passou a participar do Enade das Licenciaturas. Enquanto universidade estadual, a participação na avaliação é facultativa. A esse respeito, há um caso ilustrativo da posição quase soberana que a USP se outorga. Em um determinado momento, o Ranking Universitário da Folha [RUF] decidiu utilizar o conceito Enade como um dos seus critérios. Como a USP não participava do Enade, caiu do primeiro lugar para o terceiro. A Folha de S. Paulo procurou a USP para conversar a respeito. A resposta da USP, quem me disse isso foi um pró-reitor da USP à época, foi: “O Brasil inteiro sabe que a USP é a melhor. Se no seu ranking não está, esse não é um problema da USP, mas da sua régua. Você vai ter que explicar para a sociedade brasileira por que no seu ranking a USP não é a melhor”. Perceba que esse tipo de comportamento é privilégio da USP, mas mostra total despreocupação com classificações nacionais. É claro que, para uma universidade de porte menor, principalmente para as privadas, o RUF pode ser um instrumento de marketing. Já vi alguns anúncios desse tipo: esse é o melhor curso entre as privadas do Brasil. O papel dos rankings nacionais é esse, de travar uma disputa por visibilidade entre aquelas instituições que não aparecem nas listas internacionais. 

Você está trabalhando agora em um projeto para analisar como as universidades usam os rankings em sua relação com a sociedade. Qual é o objetivo?
Eu comecei recentemente o pós-doutorado na FFLCH-USP, trabalhando com o professor Alvaro Comin. Quero saber como os rankings podem moldar a opinião pública, a forma como a universidade se comunica com a sociedade e o modo como a sociedade espera que a universidade se comporte. Estou analisando dados de redes sociais para compreender como a sociedade civil interage com as instituições de ensino superior em relação a rankings. Quando as universidades vêm a público celebrar ou informar o seu desempenho, que tipo de reação tem a sociedade brasileira nessas redes sociais? 

Qual é a hipótese? O que espera encontrar? 
A professora Susan Robertson, da Universidade de Cambridge, publicou um artigo em que diz que parte da crise de legitimidade das universidades vem de um ressentimento. Isso porque as instituições de ensino superior, principalmente as de elite, criaram uma cisão entre “vencedores” e “perdedores” e o vestibular é o maior exemplo disso. A esmagadora maioria dos estudantes brasileiros sequer faz o vestibular, porque já se sente previamente humilhada por essa seleção que lhes escancara, amargamente, o quanto o seu direito a uma educação de qualidade lhes foi negado. Essas pessoas tiveram toda a trajetória na educação básica, muito precarizada. Robertson vai dizer que a estratificação da educação superior promoveu uma cisão entre perdedores e ganhadores nesse mercado, no qual os ganhadores não apenas obtêm um retorno econômico, como também de capital cultural, tornando-se uma estratégia de distinção das classes médias. O questionamento à universidade seria uma resposta ressentida a essa cisão criada. Eu acho essa tese dela muito forte e eu quero ver qual o papel dos rankings nessa cisão e nessa comunicação. Se eles só servem para comunicar aos ganhadores que eles, de fato, venceram, será que estão acirrando a cisão que provoca essa crise de legitimidade na universidade?

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