
Os pesquisadores norte-americanos Robert E. Hall, de 83 anos, e Michael Woodford, 71, foram agraciados hoje (12/10) com o Prêmio Nobel de Economia por suas pesquisas com foco em modelos baseados nos chamados fundamentos microeconômicos, que visam atenuar as oscilações típicas da economia capitalista nos países e no sistema internacional.
Comunicado divulgado pela Academia Real de Ciências da Suécia, responsável pelo prêmio, destacou que Hall e Woodford contribuíram para o desenvolvimento de “novos modelos macroeconômicos que melhoraram significativamente a nossa capacidade de implementar políticas de estabilização [econômica] eficazes”. Com base nesses modelos, “medidas de política orçamentária e monetária adotadas no momento certo podem atenuar os picos e as quedas da atividade econômica”.
A novidade do trabalho dos economistas norte-americanos, segundo os organizadores do Nobel, foi que, no lugar de basearem os modelos de estabilização nas relações estatísticas entre variáveis macroeconômicas (inflação, produção, consumo etc.) – como normalmente se fazia –, eles optaram por construir modelos alicerçados em fundamentos microeconômicos. “Essa abordagem busca compreender de que forma o conjunto das decisões individuais das famílias e das empresas influencia a economia”, destacou o anúncio dos vencedores.
Para John Hassler, presidente do comitê do Prêmio Nobel de Economia, o trabalho dos laureados proporcionou uma base teórica sólida para os modelos atualmente usados pelos bancos centrais e governos de todo o mundo. “Graças a eles, estamos mais bem preparados para enfrentar choques econômicos, como crises energéticas ou alterações súbitas nos níveis de consumo das famílias.”
O jornal The New York Times destacou que o reconhecimento vem em um momento oportuno, em que a economia global passa por choques frequentes e economistas alertam para a probabilidade de maior volatilidade. “Nos últimos anos, a pandemia de Covid-19, a crise energética de 2022 após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia e a turbulência contínua gerada pela guerra no Irã apresentaram desafios assustadores para banqueiros centrais e autoridades financeiras. Eles responderam a esses choques com políticas que visam impedir o aumento do desemprego, o colapso da renda ou a disparada da inflação. Hall e Woodford construíram as bases econômicas para essas políticas”, destacou o periódico norte-americano.
Foco na microeconomia
O conceito de fundamentos microeconômicos é central para entender a relevância dos trabalhos dos pesquisadores. Esses fundamentos são a base teórica que explica a economia “de baixo para cima”, ou seja, a partir das decisões individuais de consumidores e empresas e de como elas interagem em mercados específicos. Em vez de olhar apenas para grandes indicadores, como índices de inflação ou o Produto Interno Bruto (PIB), a microeconomia analisa como o comportamento e as escolhas de cada agente definem os preços e a economia em seu conjunto.
A contribuição de Hall e Woodford, analisa o economista Carlos Pinkusfeld, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ), deve ser situada no esforço de fornecer fundamentos microeconômicos, ou comportamento dos agentes, para explicar fenômenos macroeconômicos que tratam de variáveis como desemprego e das flutuações da atividade econômica.
“O mérito dessa abordagem é ser fiel aos seus fundamentos micro e buscar construir explicações para a realidade empírica na qual a economia não está sempre no pleno emprego, sendo registradas crises e variações, por vezes expressivas”, ressalta Pinkusfeld. “Ademais, a abordagem preserva a possibilidade de aplicação de políticas ativas destinadas a estabilizar a economia quando o funcionamento dos mercados não produz os resultados esperados.”
Novo-keynesianos
Hall e Woodford são destacados representantes de uma escola conhecida como novo-keynesiana, uma referência ao economista e matemático britânico John Maynard Keynes (1883-1946). “Essa abordagem se distingue tanto do keynesianismo tradicional quanto das correntes que rejeitam a intervenção do governo na economia”, explica Pinkusfeld.
Contrário à ideia de que, em tempos de crise – como na Grande Depressão de 1929 ou na crise das hipotecas, em 2008 –, a economia seria capaz de se autorregular e atingir espontaneamente uma situação de equilíbrio com pleno emprego, Keynes defendeu a necessidade de uma intervenção do governo, modificando o nível do gasto público e a taxa de juros. Desta forma, seria possível voltar a aquecer ou esfriar a atividade econômica, segundo a necessidade da conjuntura econômica. Em momentos de crescimento acelerado, com possibilidade de pressões inflacionárias, medidas contrárias deveriam ser adotadas para frear o consumo. As ideias do economista foram expostas em seu livro A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, publicado em 1936, depois de um longo período de gestação das ideias principais.
Os novo-keynesianos são uma corrente da teoria macroeconômica surgida nos anos 1980, que insere fundamentos microeconômicos nessa vertente do keynesianismo. Essa corrente surgiu após a instabilidade econômica iniciada nos países avançados na década anterior (que se estendeu ao mundo todo), reforçada por cortes bruscos na oferta de petróleo e no consequente aumento nos preços, implementados por países produtores do Oriente Médio.
“Foi um prêmio muito bem dado”, disse o economista e matemático Aloisio Araújo, professor emérito do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, a Poraquê. “Woodford, com quem já trabalhei, era um nome que se considerava havia bastante tempo para um reconhecimento desse tipo. Hall também tem sua importância nessa discussão.”
Em 2015, Araújo publicou um artigo científico com Woodford em que defendeu um modelo de atuação do Banco Central para aquecer a economia quando a taxa de juros já chegou a zero. Uma alternativa, de acordo com o trabalho, divulgado no American Economic Journal: Macroeconomics, seria o Banco Central adquirir ativos de risco, como títulos de hipoteca dos bancos.
Poucas mulheres, muitos norte-americanos
Hall, professor da Universidade Stanford, na Califórnia, e Woodford, da Universidade Columbia, em Nova York, dividirão igualmente o prêmio de 12 milhões de coroas suecas, equivalente a cerca de R$ 6 milhões. Ao receber a notícia de que havia sido um dos ganhadores do Nobel deste ano, Woodford disse que a premiação era uma surpresa e, ao mesmo tempo, uma grande honra.
Formalmente nomeado Prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, mas conhecido como o Nobel de Economia, a láurea foi instituída em 1968 pelo banco central sueco, por ocasião de seu tricentenário. O primeiro prêmio foi entregue em 1969 e, até hoje, apenas três mulheres foram agraciadas com o reconhecimento. Dos 101 economistas laureados, 65 são norte-americanos. Cerca de dois terços dos vencedores não americanos trabalham em instituições dos Estados Unidos.


