
Um comunicador científico se tornou um influenciador digital na China ao produzir vídeos com denúncias de má conduta acadêmica no país. Filho de trabalhadores rurais, Geng Hongwei, conhecido popularmente como ‘Estudante Geng’, é graduado e mestre em biologia e até recentemente fazia doutorado em engenharia biomédica na Universidade Beihang, em Beijing. Mas resolveu abandonar o curso em 2025 para se dedicar integralmente à produção de vídeos em que fala sobre temas científicos e, em especial, sobre práticas questionáveis de pesquisa. Seu perfil na plataforma de vídeos Bilibili tem mais de 2 milhões de seguidores. Ele também tem um canal no YouTube
Em geral, ele denuncia incoerências em padrões estatísticos e manipulação de imagens que detecta em estudos científicos publicados em revistas de prestígio por autores chineses da área biomédica. Em setembro, quatro pesquisadores chineses denunciados por Geng foram punidos pela Fundação Nacional de Ciências Naturais da China (NSFC), agência vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia do país, acusados de manipulação de dados. Um deles foi Wang Ping, ex-diretor da Escola de Ciências da Vida e Tecnologia da Universidade Tongji, em Xangai, autor de um trabalho publicado na revista Nature em 2024 sobre o papel de uma enzima na regulação de danos no DNA. O estudo foi retratado em 29 de julho de 2026, depois que Geng Hongwei apontou padrões improváveis em seus dados numéricos: em uma planilha, 76% dos dados terminavam com o número 5 e só 6% com o número 6.
Outro exemplo foi o de Chen Quan, que era diretor da Faculdade de Ciências da Vida da Universidade Nankai, em Tianjin. Ele é o autor principal de um artigo sobre câncer colorretal, publicado em 2024 na Nature Cancer e retratado também em 29 de julho de 2026. Geng observou que, em uma planilha anexada ao paper, os dois dígitos após a vírgula de cada um dos seus 64 números eram idênticos aos números localizados na mesma posição na planilha seguinte, em uma evidência de fabricação. Também foram punidos pelo NSFC Kuang Dongming, ex-vice-diretor da Escola de Ciências da Vida da Universidade Sun Yat-sen, em Guangzhou; e Su Jiacan, ex-diretor do Instituto de Medicina Translacional da Universidade de Xangai.
A agência revogou os financiamentos dos quatro pesquisadores e exigiu que eles devolvessem mais de 10 milhões de yuans (o equivalente a cerca de R$ 7,5 milhões). Também os proibiu de solicitar financiamento por um período de até sete anos. Antes do anúncio da NSFC, eles já haviam sido investigados por suas universidades e perdido seus cargos de direção. Os vídeos de Geng sobre seus artigos, divulgados entre abril e maio, tiveram mais de 9 milhões de visualizações. O influenciador disse ao site do jornal South China Morning Post que as falsificações que detectou eram grosseiras e, se os dados tivessem sido manipulados “com mais destreza”, não teria sido capaz de detectá-las. Também contou que, desde que seus primeiros vídeos viralizaram, já recebeu novos relatos de má conduta acadêmica de centenas de pessoas.
Shaoxiong Brian Xu, pesquisador da área de integridade científica na Universidade Normal de Huanggang, destacou que, embora trabalhe de forma independente, Geng conta com a simpatia do governo chinês, que tem buscado punir pesquisadores que cometem má conduta e reduzir a quantidade de artigos retratados de autores do país. “É provavelmente a primeira vez que um denunciante independente, utilizando as redes sociais, obteve ampla cobertura positiva na mídia estatal chinesa”, disse Xu à revista Science.


