De uma tacada só, 1.417 estudos publicados em conferências são invalidados

Trabalhos haviam sido vendidos em redes sociais por serviços fraudulentos, as ‘fábricas de papers’

Os artigos retratados foram apresentados em conferências organizadas entre 2021 e 2026 pelo Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) dos Estados Unidos // Pixabay
Os artigos retratados foram apresentados em conferências organizadas entre 2021 e 2026 pelo Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) dos Estados Unidos // Pixabay

O Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE), sociedade profissional com sede nos Estados Unidos, anunciou a retratação de 1.417 estudos científicos apresentados em conferências que ajudou a organizar entre 2021 e 2026. A retratação é um procedimento formal em que um periódico acadêmico invalida ou remove um paper já publicado após ter encontrado erros ou indícios de má conduta. 

Os trabalhos retratados haviam sido identificados em abril por um grupo de pesquisadores que rastreou a comercialização de manuscritos científicos em redes sociais como Telegram, WhatsApp e Facebook. Os estudos à venda apareceram publicados, posteriormente, em 366 anais de eventos patrocinados pelo IEEE. Nos anais da 5ª Conferência Internacional de Computação Contemporânea e Informática, realizada em 2022 na Índia, por exemplo, os papers fraudulentos representavam 23,51% de todos os textos divulgados.

A suposição dos responsáveis pelo levantamento, publicado no mês passado na revista Accountability in Research, é que esses estudos foram produzidos por ‘fábricas de papers’ –  serviços fraudulentos que geram manuscritos científicos, muitas vezes com dados falsos, e vendem sua autoria.  Os trabalhos problemáticos tinham entre seus autores cerca de 7.500 pesquisadores vinculados a mais de 4 mil instituições em 56 países. 

“As fábricas de papers constituem um mercado aberto e as ofertas de venda são públicas nas redes sociais. Qualquer um pode encontrá-las. Qualquer um pode comprar. E qualquer um pode rastreá-las”, disse à revista Nature uma das autoras do levantamento, a especialista em integridade científica Anna Abalkina, pesquisadora da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha.

Além de serem anunciados em redes sociais, os artigos retratados exibiam outras anomalias. Algumas eram de ordem estatística: 82% dos papers tinham exatamente seis autores, ante apenas 15% do conjunto de trabalhos publicados nos anais de conferências do IEEE.

Também chamou atenção a excessiva diversidade dos autores, que é típica de artigos vendidos para diferentes compradores. Em média, cada artigo era assinado por pesquisadores com, ao todo, 5,1 afiliações distintas a universidades, instituições de pesquisa ou empresas. “Cerca de 46% dos artigos identificados incluem autores de, pelo menos, dois países. Isso sugere que os serviços de venda de autoria operam em escala internacional”, diz o estudo. 

Foram detectadas, ainda, manipulações nas citações dos artigos. Um exemplo: em trabalhos dos anais da 3ª Conferência Internacional sobre Avanços em Computação, Comunicação e Materiais, realizada na Índia em 2024, as citações foram inseridas em trechos de texto idênticos reutilizados em diversos artigos. Um dos serviços oferecidos nos anúncios coletados nas redes sociais é a venda de citações.

Três especialistas em ciência da computação avaliaram manualmente alguns dos artigos sob suspeição e concluíram que muitos apresentam conteúdo genérico e superficial, exemplos irrelevantes e gráficos que não acrescentavam informações ao texto.

Outro sinal de fraude foi a presença em 128 artigos das chamadas “frases torturadas”, paráfrases sem sentido ou expressões mal traduzidas que sinalizam uma tentativa de enganar os softwares de detecção de plágio. Uma delas foi a expressão data management (gerenciamento de dados), que apareceu escrita como information the executives (algo como informação dos executivos).

Em um comunicado, o IEEE informou que iniciou uma investigação assim que tomou conhecimento das denúncias e confirmou as suspeitas sobre os 1.417 artigos retratados utilizando ferramentas e tecnologias que avaliam a qualidade de publicações e a análise de especialistas. Avisou, ainda, que vem ampliando e adaptando seus processos para lidar com ameaças no campo da integridade, que estão sempre evoluindo.

“Proteger a integridade do registro acadêmico é uma responsabilidade compartilhada por toda a comunidade de pesquisa”, afirmou W. Clem Karl, vice-presidente do IEEE e professor da Faculdade de Engenharia da Universidade de Boston, nos Estados Unidos. “Continuamos a avançar nesse trabalho por meio da colaboração entre pares, da inovação contínua e da dedicação de nossos especialistas voluntários em manter os elevados padrões que sustentam o progresso científico”.

Uma das maiores organizações profissionais do mundo, o IEEE tem 533 mil membros em 190 países. Patrocina, em conjunto com parceiros, cerca de 2 mil conferências e eventos científicos por ano e publica os estudos acadêmicos apresentados por seus participantes em cerca de 250 revistas, anais e coletâneas. Essa produção chega a 350 mil trabalhos anualmente. De acordo com Anna Abalkina, os manuscritos submetidos para anais de conferências frequentemente não passam pelo mesmo crivo de qualidade imposto pela avaliação por pares de boas revistas científicas. “A publicação é rápida”, disse à Nature. 

Nunca antes tamanha quantidade de artigos havia sido invalidada em um único dia por uma editora acadêmica, embora as retratações de massa não sejam propriamente incomuns. O próprio IEEE havia retratado mais de 1,2 mil resumos e artigos apresentados na Conferência Internacional sobre Governo e Negócios Eletrônicos, realizada em Xangai, na China, em 2011, depois de concluir que eles foram publicados sem passar por uma avaliação por pares rigorosa.

O caso mais impressionante foi o da extinta editora Hindawi, que retratou cerca de 8 mil artigos em 2023, também por falhas na revisão por pares, mas os trabalhos não foram anulados todos de uma vez. No maior lote de retratações, 567 artigos foram invalidados. Não por coincidência, 2023 entrou para a história da comunicação científica como o ano com o maior número de retratações de artigos já registrado – foram mais de 10 mil.

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