50 anos lutando contra a esquistossomose           

Infectologista Mirian Tendler e sua equipe construíram seu próprio caminho para levar adiante proposta de vacina que entra na etapa final de testes no Senegal

Miriam Tendler: “Sem uma grande rede de colaborações a gente não chega a lugar nenhum”
Miriam Tendler: “Sem uma grande rede de colaborações a gente não chega a lugar nenhum”
//Sindusfarma

No final dos anos 1970, quando encontrou uma pista para desenvolver uma possível vacina contra esquistossomose, durante seu mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a infectologista Miriam Tendler não imaginava que passaria as cinco décadas seguintes lutando para  chegar a uma formulação capaz de evitar o avanço de uma doença infecciosa que põe em risco 200 milhões de pessoas no mundo, das quais 1,5 milhão no Brasil, principalmente nas áreas mais pobres do Sudeste e Nordeste. Pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro desde 1973, ela teve de ir além do trabalho em laboratório e aprender a negociar com empresas e órgãos nacionais e internacionais, costurando uma rede de acordos científicos, tecnológicos e políticos para seguir adiante. A médica de 77 anos coordena atualmente uma equipe com cerca de 40 pesquisadores. 

“Demorar tanto tempo [para concluir o trabalho] é um demérito”, disse à revista Poraquê. “É consequência da falta de um ambiente que favoreça o desenvolvimento de tecnologia nacional.” Não é incomum, contudo, que as formulações nessa área demorem décadas para chegar às pessoas. As vacinas contra a dengue trabalhadas por duas empresas, a francesa Sanofi e a japonesa Takeda, e outra, mais recente, do Instituto Butantan, em São Paulo, tomaram mais de 20 anos até serem consideradas adequadas para aplicação em larga escala. As vacinas contra a Covid-19, elaboradas e testadas em menos de dois anos, foram uma grande exceção.

Os testes com a SchistoVac, como é chamada a candidata brasileira a vacina contra esquistossomose, estão agora na reta final, embora avancem mais devagar do que a equipe da Fiocruz gostaria. Se tudo der certo, deve começar em dezembro a etapa final dos testes clínicos (em pessoas), a chamada fase 3, a última antes da solicitação aos órgãos oficiais para uso em larga escala na população. Planeja-se um estudo duplo cego (no qual nem os participantes nem a equipe médica sabem quem recebeu  a formulação ativa ou uma sem efeito, o placebo) com o objetivo de avaliar a possibilidade de redução do tempo e da intensidade de reinfecção.

Nessa etapa do trabalho, três doses da formulação ou do placebo serão aplicadas, uma por mês, em 1.500 crianças de 8 a 15 anos da região de Saint-Louis, no sudoeste do Senegal. Encravada na foz do rio Senegal, a cidade de 250 mil habitantes é o centro de uma área com alta incidência das duas formas da doença: a intestinal, causada pelo verme Schistosoma mansoni, que se instala principalmente nos intestinos e no fígado; e a urogenital, decorrente da infecção por S. haematobium, que se aloja principalmente na bexiga. No Brasil ocorre apenas S. mansoni.

Os testes da fase I, realizados em 2012 em 20 pessoas saudáveis de áreas livres de esquistossomose da cidade do Rio de Janeiro, mostraram que a vacina era segura (Vaccine, janeiro de 2016). As três etapas da fase II, entre 2015 e 2017 em 30 adultos e 95 crianças de Saint-Louis, indicaram que a formulação poderia ativar as defesas do organismo contra o parasita e evitar o avanço da doença (Vaccines, março de 2025). O trabalho no Senegal é coordenado pela Espoir Pour La Santé (EPLS), um centro de pesquisa biomédica não governamental em Saint-Louis criado pelo Instituto Pasteur de Lille.

“Trabalhamos juntos no Senegal há dez anos”, contou Tendler. A possibilidade de cooperação surgiu em uma reunião promovida pela Fundação Gates, na cidade de Seattle, nos Estados Unidos, em 2014. Em um dos intervalos das conversas em grupo, Gilles Riveau, diretor da EPLS, comentou com ela que o trabalho com uma vacina contra esquistossomose em que sua equipe trabalhava, a Sh28GST, deveria ser interrompido, principalmente porque os testes em crianças no Senegal não haviam alcançado a eficácia desejada, contrariando os resultados obtidos em modelos animais (PLoS Neglected Tropical Diseases, dezembro de 2018). Em seguida a convidou para trabalharem juntos no projeto da Fiocruz. “’O pessoal treinado e a estrutura de trabalho já estão lá’, ele disse”, contou a médica. A rápida conversa marcou um salto na pesquisa que ela havia iniciado quando ainda cursava medicina na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Em 1971, no quarto ano do curso, ela ganhou uma bolsa de pesquisa, um prêmio por ter vencido um concurso de monografias, e foi para o Instituto Nacional de Endemias Rurais (INERu), na cidade do Rio de Janeiro, depois incorporado pela Fiocruz. Foi seu primeiro – e marcante – contato com a esquistossomose. Diagnosticar e tratar pessoas com o fígado inchado em decorrência da infecção contraída décadas antes motivou sua decisão de se concentrar nessa doença, comum nas populações mais pobres do mundo.

A SchistoVac, produzida pela Fiocruz
A SchistoVac, produzida pela Fiocruz //IOC/Fiocruz

“Entrei na Fiocruz ainda no final da faculdade, como médica, e só depois é que fiz concurso para pesquisadora”, contou. No início, sua equipe trabalhava com uma mistura de antígenos, as moléculas que ativam as respostas do organismo contra agentes causadores de doenças.

Em 1987, ela foi para um estágio de pós-doutorado em biologia molecular no Marine Biological Laboratories, nos Estados Unidos, levando soros sanguíneos de animais vacinados e não vacinados. “Tive acesso a tudo o que não tinha aqui”, contou. Lá ela identificou uma proteína da superfície do verme, a Sm14, que seria usada como antígeno na candidata à vacina por ser a que mais ativava os mecanismos de defesa do organismo: os anticorpos que se ligavam à proteína a impediam de absorver lipídeos do organismo hospedeiro, essenciais para sua sobrevivência. Ela também isolou o gene que produzia a proteína e produziu clones (cópias), caracterizados na Universidade de Heidelberg, na Alemanha (uma colega de laboratório nos Estados Unidos era de lá).

“Esse foi o início da fase molecular da pesquisa”, relatou Tendler. Atualmente, a Sm14 é elaborada por meio da levedura Pichia pastoris, em cujo DNA foi inserido o gene que induz à sua produção. Depois de purificada, a proteína é adicionada a um adjuvante sintético, o Glucopiranosil Lipídio A (GLA), que aumenta sua capacidade de estimular a produção de anticorpos contra o parasita.

Ainda nos anos 1990, o médico e bioquímico Isaías Raw (1927-2022) e sua equipe do centro de biotecnologia do Instituto Butantan ajudaram o grupo da Fiocruz a aprimorar as técnicas de produção e purificação da Sm14. O trabalho conjunto rendeu duas patentes, que asseguram o direito exclusivo de produção durante determinado tempo (no Brasil, 20 anos, a contar da data de solicitação da patente). 

A equipe do Rio de Janeiro dá muita importância a esse mecanismo de proteção das descobertas científicas. “Sem patente, nenhuma empresa faz parceria. Temos atualmente oito famílias de patentes, com 40 já concedidas ou solicitadas, para a ShistoVac”, ela comentou no final de maio em um encontro sobre pesquisa de novos medicamentos promovido pelo Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) na capital paulista.

Anos depois, causou uma certa confusão a constatação de que essa proteína poderia servir para combater duas espécies de vermes: Schistosoma em pessoas e Fasciola hepatica, que ataca o fígado de bovinos (PNAS, janeiro de 1996). “Tínhamos uma vacina contra vermes para pessoas de países pobres e para o gado de países ricos”, comentou Tendler em sua apresentação. Segundo ela, a Fiocruz foi procurada por empresas do setor veterinário, mas as conversas não avançaram.

Para conseguir financiamento, durante dez anos a equipe da Fiocruz adotou o modelo de parcerias público-privadas (PPP), por meio do qual os órgãos públicos e as empresas dividem os custos das pesquisas. A primeira foi com a Fundação Biominas, de Belo Horizonte, com a qual a Fiocruz obteve apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para começar a implantar as chamadas boas práticas de produção, que permitiram o início dos testes clínicos no Brasil.

Para os testes clínicos da fase 3 no Senegal, a solução com a Sm14 está sendo preparada e certificada por centros de pesquisa e empresas dos Estados Unidos, custeados pela Finep e pelo Ministério da Saúde, já que a candidata a vacina deverá também ser avaliada também no Brasil. “O apoio político de diretores da Fiocruz foi muito importante para conseguirmos fazer e pagar os contratos internacionais”, ela reconheceu na entrevista à Poraquê.

Tendler ressaltou também a colaboração do corpo diplomático do Brasil em Genebra, na Suíça, que facilitou o contato com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e tem apresentado a SchistoVac a outros países da África com alta incidência de esquistossomose para eventuais acordos de produção conjunta. “Sem uma grande rede de colaborações a gente não chega a lugar nenhum”, ela enfatizou.

Apesar dos resultados satisfatórios obtidos até agora, os resultados são incertos. Se os resultados não forem satisfatórios, todo o trabalho pode se perder, como aconteceu com a Sh28GST, encerrando de modo desolador um trabalho que havia começado no fim dos anos 1990. Outra candidata a vacina, desenvolvida pelo Centro Médico do Texas em parceria com o Sabin Vaccine Institute, ambos nos Estados Unidos, concluiu a fase 2 de testes clínicos em uma região de Uganda com alta incidência de esquistossomose.

Tendler trabalha também na FABP Biotech, startup que ela ajudou a criar em 2020, em parceria com a Fiocruz, para desenvolver vacinas com base na Sm14, contra doenças causadas por vermes em gado e cães. “Temos três protótipos de vacinas, que já testamos em carneiros”, ela contou. “Achava que seria mais rápido.”

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