
Porque remete à biodiversidade brasileira, à ciência que também conduz à tecnologia, à cultura amazônica.
O desafio era batizar uma revista que quer chegar em todos os cantos, investigar o que há de novo, interessante e importante na ciência e tecnologia do Brasil, atiçar a curiosidade desde jovens até centenários. Que leva a sério o que faz, mas não é sisuda. Que aprofunda o conhecimento com rigor, mas também com humor e leveza. Que enxerga e revela cores, brilhos, surpresas, choques.
O poraquê é um peixe amazônico, um brasileiro que transcende as fronteiras nacionais. Com até 2,5 metros de comprimento, ele serpenteia pelo fundo de águas rasas nos remansos dos rios, nos igarapés e nos lagos, onde precisa subir à superfície para respirar. É o animal capaz de produzir as mais fortes descargas elétricas de que se tem notícia nos seres vivos, que usa para se defender e capturar presas. Existem outros tipos de peixes elétricos, cerca de 250 espécies, mas eles emitem uma descarga fraca que os ajuda a navegar no ambiente turvo, como se fosse um radar.
A recordista entre os poraquês é a espécie Electrophorus voltai, que gera até 860 volts (V) – pense que as tomadas da sua casa são de 110 V ou 220 V, para ter uma dimensão. Também convém evitar pôr o dedo no poraquê, mas o efeito é diferente da tomada: o choque do peixe dói e causa o reflexo de se afastar. Quando a pessoa está nadando e pega de jeito em um poraquê, todos os músculos contraem e ela pode se afogar em consequência da paralisia temporária. O mesmo pode acontecer com o predador que tenta mordê-lo. Não à toa, o nome do peixe significa “aquele que faz dormir”, em tupi. As outras espécies de poraquê são E. varii e E. electricus.
Dizem algumas lendas indígenas que um guerreiro tentou dominar o fogo e os elementos da natureza e se transformou em peixe elétrico. Fato é que o anatomista escocês John Hunter (1728-1793) dissecou um poraquê que chegou às suas mãos e identificou células musculares modificadas capazes de gerar energia. O órgão que permite ao peixe produzir eletricidade, por isso, leva seu nome. Conta a história, também, que no final do século XVIII o cientista italiano Alessandro Volta (1745-1827) se inspirou nessa anatomia para criar a primeira pilha capaz de emitir eletricidade constante – e foi por isso homenageado com a espécie E. voltai. Muita gente hoje ainda tenta entender o funcionamento e a ecologia desses animais e se inspira neles para desenvolver tecnologias. Traremos mais notícias nos próximos tempos.
Aqui na Poraquê você vai encontrar ciência, tecnologia, curiosidades, histórias, história, cultura e muito mais. Vai espiar o fazer científico e suas consequências. Talvez isso ajude a acertar uma pergunta no Enem, forneça assuntos de conversa no bar ou inspire rumos para a vida. Nosso compromisso é não paralisar nem fazer dormir, muito pelo contrário.

