
Um editorial da revista Annals of Biomedical Engineering reuniu um conjunto de sinais de alerta que ajudam a identificar revistas acadêmicas com práticas predatórias. São aquelas publicações que utilizam marketing agressivo para atrair autores desavisados, mas pouco oferecem em troca: divulgam artigos em troca de dinheiro, sem analisar a qualidade de seu conteúdo. “Elas representam uma séria ameaça à integridade da comunicação científica, priorizando o lucro em detrimento do rigor acadêmico e desrespeitando padrões éticos, o que resulta na disseminação de pesquisas carentes de qualidade e credibilidade”, afirmam os editores da revista, que pertence à Sociedade de Engenharia Biomédica, sediada nos Estados Unidos. O objetivo do editorial é servir como um guia para que pesquisadores não caiam em armadilhas na hora de escolher onde publicar seus trabalhos. “Evitar periódicos predatórios exige vigilância e esforço. Os pesquisadores devem ir além das aparências superficiais para verificar alegações relacionadas à indexação das revistas, confirmar a participação dos membros do conselho editorial, investigar o histórico da editora e avaliar criticamente os processos de revisão por pares”, diz o editorial, que recomenda atenção para os seguintes indícios:
1 – Design precário – É comum que periódicos predatórios apresentem sites de aparência precária, com elementos visuais que variam de uma página para outra, carregamento lento, navegação que leva a páginas com erro e layout sobrecarregado com publicidade e ‘pop-ups’. “Essas falhas de design e técnicas não são meras questões estéticas. Elas sinalizam falta de investimento em infraestrutura e desrespeito aos padrões esperados na publicação acadêmica”, escreveram os editores do Annals of Biomedical Engineering.
2 – Má qualidade linguística – Parte dessas revistas é produzida por indivíduos de países que não tem o inglês como língua principal. Por conta disso, é comum que os títulos apresentem frases com estrutura confusa e palavras inadequadas. A falta de investimento em uma revisão profissional também faz com que publiquem textos com erros gramaticais e de ortografia até mesmo em áreas críticas, como títulos e menus.
3 – Baixa credibilidade visual – Para simular profissionalismo, periódicos predatórios costumam ilustrar seus sites com fotos genéricas adquiridas em banco de imagens, em geral de cientistas na frente de microscópios ou em mesas de reunião. Outro sinal suspeito é o uso de logotipos com desenho sem qualidade profissional ou que imitam os de editoras e revistas consagradas.
4 – Marketing sedutor – Em mensagens por e-mail, revistas predatórias usam uma linguagem elogiosa para convidar pesquisadores a submeter artigos ou a participar de conselhos editoriais e de conferências. Com frequência, prometem analisar o artigo rapidamente, o que pode ser um indicador de ausência de um genuíno processo de avaliação. Erros gramaticais nas mensagens e uso de provedores de e-mails gratuitos na correspondência com autores também são sinais de alerta sobre a origem suspeita das mensagens.
5 – Títulos ambiciosos – Uma fórmula recorrente nos títulos das revistas predatórias é combinar os componentes básicos ‘Journal’ ou ‘Archives of’ com complementos que insinuam alcance e prestígio, como ‘international’, ‘global’ ou ‘advanced’. Algumas adotam deliberadamente nomes muito parecidos com os de títulos respeitados para enganar autores desatentos.
6 – Informações vagas ou ausentes – Periódicos predatórios costumam fornecer informações vagas sobre eles próprios e seus processos: descrevem genericamente como é feito o processo de revisão dos artigos, informam como endereço uma caixa postal ou um local não verificável ou evitam dar detalhes de sua estrutura organizacional e de sua equipe.
7 – Pagou, publicou – Ao contrário de revistas bem estabelecidas, que selecionam os artigos seguindo critérios de qualidade e publicam apenas uma parcela dos manuscritos que recebem, as revistas predatórias costumam atrair autores oferecendo uma aceitação rápida e garantida de seus papers. Alegações como “todos os manuscritos de qualidade serão aceitos” e a promessa de prazos muito curtos para analisar os textos são altamente suspeitos.
8 – Taxas sem transparência – As taxas de publicação de artigos cobradas pelas revistas fraudulentas nem sempre são informadas claramente. Às vezes, as quantias são baixas, mas, após a publicação, aparecem cobranças inesperadas pela inclusão de figuras coloridas, pelo ‘processamento acelerado’ ou pelo ‘arquivamento digital’, que não haviam sido informadas previamente. Há casos em que a cobrança é feita por meio de métodos de pagamento anônimos ou irreversíveis, como o Bitcoin.
9 – Sem políticas de correção – Políticas para correção de erros e critérios para retratar, ou seja, para tornar inválidos os artigos com falhas ou evidências de má conduta também são vagos ou estão ausentes nas revistas predatórias. Para remover papers problemáticos a pedido dos autores, alguns periódicos desse tipo cobram taxas adicionais —prática antiética conhecida como ‘retratação paga’.
10 – Ausência de Preservação – Revistas científicas legítimas garantem a manutenção do conteúdo publicado ao fazerem parte de sistemas de preservação digital, como o PubMed Central. Já títulos predatórios não preveem esses mecanismos. O conteúdo pode desaparecer da internet sem aviso prévio.
11 – Indexação falsa – Periódicos predatórios enfrentam barreiras para serem indexados em bases de dados como Web of Science, Scopus e MEDLINE. Mas o fato de serem barrados não os intimida. Alguns informam falsamente que estão vinculados a essas bases, outros dizem pertencer a índices fictícios. Um exemplo concreto mencionado pelo editorial é o de uma revista que dizia estar indexada no Global Science Citation Index, que não existe, mas imita o nome do Emerging Sources Citation Index, da Web of Science. Para tirar a dúvida, é preciso visitar o site oficial da base mencionada e pesquisar o periódico pelo título ou ISSN, que é o código de 8 dígitos usado para identificar publicações. Se não aparecer, a alegação é falsa.
12 – Indicador fabricado – O fator de impacto de uma revista é um indicador calculado anualmente pela Clarivate Analytics para periódicos indexados na base de dados Web of Science. Ele computa o número de citações recebidas pelo conjunto de artigos de uma revista em determinado período e é usado como referência de seu prestígio e repercussão. Há casos de periódicos com práticas predatórias que inventam um fator de impacto. Para verificar se estão falando a verdade, é preciso consultar a edição mais recente do Journal Citation Reports, da Clarivate Analytics.
13 – Conselhos editoriais falsos – Na tentativa de criar uma ilusão de legitimidade, alguns periódicos predatórios fantasiam a composição de seus conselhos editoriais, mencionando nomes de pesquisadores sem o consentimento deles. Descobrir esse tipo de fraude é difícil e requer investigação. Uma maneira de verificar é entrar em contato com os supostos membros de um conselho editorial por meio de seus e-mails institucionais e perguntar se eles confirmam sua participação nos conselhos.
14 – Localização suspeita – Editoras predatórias às vezes escondem suas reais localizações. Em alguns casos, indicam endereços em países como Estados Unidos ou Reino Unido, mas os contatos por telefone têm códigos de outro país. Também há as que utilizam endereços inexistentes ou então falsos – em edifícios residenciais ou pertencentes a outras empresas.
15 Abrangência exagerada – Certas revistas fraudulentas aceitam artigos de disciplinas múltiplas e às vezes disparatadas (como biologia do câncer, inteligência artificial e avaliação educacional, ao mesmo tempo). Isso, para atrair o maior número possível de autores. Essa cobertura excessiva é suspeita, porque não é razoável exigir dos editores expertise em áreas muito diferentes, e pode ser reveladora da ausência de um processo consistente de revisão por pares.
16 – Falta de metadados – Os Identificadores de Objeto Digital (DOI) garantem que um artigo seja localizado mesmo se seu endereço na internet for modificado. É melhor evitar publicar em um periódico que divulga artigos sem DOI ou então informa identificadores que não levam a nenhum endereço válido.
17 – Direitos autorais ambíguos – Periódicos predatórios podem apresentar informações confusas ou contraditórias sobre quem detém os direitos autorais dos artigos (geralmente os autores ou suas instituições) e quais são os direitos de reutilização, ao contrário das revistas sérias, que são explícitas em relação a esses direitos.
18 – Conferências predatórias associadas– Há casos de editoras de revistas predatórias que promovem conferências internacionais … predatórias. Elas convidam autores a apresentar trabalhos nesses eventos, mas não avaliam a qualidade dos estudos, que depois são divulgados em anais e coletâneas – desde que se pague uma taxa para participar e publicar. Sinais de que uma conferência é uma arapuca incluem a escassez de informações sobre comissões organizadoras, localização em pequenas salas de hotéis e promessas de publicação dos trabalhos sem grandes embaraços.

