
O Brasil registrou 119.643 mortes associadas ao calor extremo entre os anos 2000 e 2019, segundo um amplo estudo coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). O trabalho, cujos resultados foram divulgados recentemente, também avaliou os impactos das ondas de calor sobre internações na rede do Sistema Único de Saúde (SUS).
Em entrevista ao programa Hora da Ciência, o podcast da revista Poraquê, a pesquisadora em saúde pública Beatriz Fátima de Oliveira, da Fiocruz do Piauí, afirmou que a principal causa de mortalidade relacionada às ondas de calor foram as doenças cardiovasculares e respiratórias. “Conforme vai aumentando a escolaridade, contudo, vai diminuindo o risco de morrer”, esclarece Oliveira.
Para Oliveira, o estudo, intitulado Saúde e ondas de calor: mortalidade, morbidade e implicações para o SUS no Brasil, inovou ao integrar, em âmbito nacional, a caracterização das ondas de calor (frequência, duração e intensidade) com uma análise minuciosa de seus reflexos em hospitalizações e mortalidade.
A análise dos dados de mortalidade nos 5.566 municípios brasileiros registrados no Sistema de Informações de Mortalidade do DATA SUS nos 20 anos analisados revelou que os óbitos atribuíveis ao calor extremo correspondem a 0,6% do total de mortes ocorridas no período. Os idosos foram os mais afetados, com 97 mil óbitos relacionados às ondas de calor.
Com relação às internações no SUS, informou Oliveira, verificou-se entre os idosos uma alta de hospitalizações por doenças respiratórias, como pneumonia, do aparelho geniturinário, entre elas insuficiência renal, e endócrino-metabólicas, como diabetes. “Entre as crianças, houve um aumento de internações por gastroenterite.”
De acordo com os autores do estudo, realizado no âmbito do projeto de cooperação Ciência&Clima, executado pelo MCTI com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD Brasil), os resultados reforçam a necessidade de elevar a sensibilização da população sobre os perigos do calor extremo e fortalecer ações preventivas em nível municipal.
“Não temos como interferir na onda de calor. Ela vai acontecer, mas podemos diminuir a exposição a esse fenômeno com avisos e comunicação, principalmente para a população mais sensível”, diz Oliveira. “Temos que criar sistemas de alerta e uma forma de nos comunicar com essas pessoas para protegê-las e reduzir a exposição.”

