
O biólogo paulista Adalberto Luis Val, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), recebeu no dia 30 de julho a Medalha Le Cren, honraria concedida pela Fisheries Society of the British Isles (FSBI) a cientistas e equipes com grande contribuição para a biologia, a conservação e a compreensão dos peixes. A entrega do prêmio aconteceu em uma cerimônia na Universidade de Southampton, na Inglaterra, em que Val fez uma palestra sobre sua trajetória científica dedicada ao estudo dos peixes amazônicos, com destaque para suas adaptações fisiológicas a condições extremas. De volta a Manaus, onde vive desde a década de 1980, Val conversou por videoconferência com a revista Poraquê. Falou sobre a importância da premiação para a ciência brasileira, sobre as dores e as delícias de fazer pesquisa na Amazônia e sobre o respeito que aprendeu a ter pelo poraquê, peixe amazônico cujas descargas elétricas chegam a 860 volts.
Qual é a importância da medalha Le Cren para a ciência em ecologia dos peixes feita na Amazônia?
O prêmio é concedido por uma organização inglesa, a Fisheries Society of the British Isles, que é uma sociedade super forte e competente no mundo da biologia de peixes e congrega cientistas das Ilhas Britânicas. A concessão dessa distinção é discutida com esse grupo de pesquisadores. O biólogo britânico Eric David Le Cren [1922–2011], um pioneiro na ecologia de peixes de água doce, estudou a relação entre o crescimento e o peso de organismos e transformou isso em uma equação para peixes, que chamamos de fator de condição. Na relação entre peso e comprimento, o animal não pode ser muito grande nem muito pesado. Quando essa relação é igual a 1, a condição é ideal. Essa contribuição foi publicada em 1951 e teve um papel extremamente importante porque criou um parâmetro para estimar a qualidade de vida nos ambientes aquáticos. Com base na medida do peso e comprimento e aplicando a equação, é possível avaliar se os peixes estão em bom estado nutricional e têm uma qualidade de saúde adequada. Depois da morte de Le Cren, a FSBI decidiu criar uma medalha para valorizar o trabalho que ele fazia. Esse tipo de iniciativa gera uma responsabilidade imensa, é preciso honrar a medalha. Sou o primeiro brasileiro a recebê-la e fiquei emocionado por terem identificado nos trabalhos que fazemos aqui na Amazônia, já há quase 50 anos, uma contribuição importante para valorizar a Medalha Le Cren.
Como foi a cerimônia de premiação?
Fui a Southampton, na Inglaterra. Fiz uma palestra contando minha trajetória desde a Expedição Alpha Helix, uma célebre missão científica de um navio da National Science Foundation, dos Estados Unidos, focada no estudo da biologia dos peixes da Amazônia em 1976 – que foi o que me entusiasmou a vir para a região – até a Medalha Le Cren, cinquenta anos depois. Não vejo essa medalha como um prêmio pessoal. Estou extremamente feliz, mas ela é fruto de uma carreira e de uma interação imensa com outros pesquisadores – nós tivemos ideias juntos e as testamos – e com os estudantes que passaram por aqui, além dos estágios que fiz no Canadá. Também é preciso reconhecer o apoio de um conjunto de agências brasileiras de financiamento e a premiação vem em um momento em que há uma melhora no financiamento da pesquisa brasileira. Sem financiamento não se faz ciência, e a medalha teria ido para outro lugar.
Em 2023, você ganhou o Prêmio Fundação Bunge, que tinha o tema “soluções baseadas na natureza”. Como a fisiologia dos peixes amazônicos pode ajudar nesse momento de crise climática?
Os peixes da Amazônia, em particular, estão vivendo muito próximos de seus limites térmicos máximos. Há uma medida chamada CTmax, temperatura crítica máxima, que é um limite a partir do qual o animal perde capacidade de coordenação motora e não é mais capaz de escapar de um ambiente quente que lhe será fatal. Estamos observando que, mesmo com pequenos aumentos de temperatura ambiental, os peixes da Amazônia começam a chegar muito perto das temperaturas máximas que suportam. Esse conhecimento é fundamental para o desenvolvimento de soluções baseadas na natureza, pois compreender como os peixes e os ecossistemas amazônicos respondem aos estressores ambientais permite orientar estratégias de conservação, restauração e manejo sustentável que aumentem a resiliência da biodiversidade e das populações humanas frente às mudanças climáticas. Na palestra que fiz na Inglaterra, expliquei que é um erro olhar para as mudanças climáticas apenas pelo ângulo do aumento de temperatura. Do ponto de vista biológico, a influência é muito mais ampla, pois envolve oxigênio, diminuição da quantidade de água no ambiente e também uma quantidade de água maior passando pelas brânquias dos peixes, já que eles precisam ventilar mais. Se a água está poluída, os peixes se contaminam e morrem mais rápido. O mercúrio é um desses problemas. Quando há uma variação climática intensa, como aconteceu em 2023 e 2024, tem uma absorção de mercúrio muito mais intensa pelos organismos aquáticos de uma maneira geral.
Onde o problema é mais acentuado?
Na poluição ambiental com produtos perigosos como o mercúrio. É um problema sério que antes estava localizado aqui na Amazônia, por conta da mineração em terra indígena. Mas hoje o mercúrio está na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Está na água distribuída em São Paulo. Estamos brigando muito para ter um programa de monitoramento do mercúrio no Brasil, é preciso tomar providências para diminuir esses níveis. Na Amazônia, perdemos nos últimos anos cerca de 400 crianças Yanomami. Elas não têm outra alternativa para obter proteína e outros nutrientes senão consumir peixe contaminado. Quanto menor o tamanho do corpo, maior é a taxa de contaminação. Estamos usando microRNA, que é uma tecnologia bastante nova, em busca de marcadores para o mercúrio no sangue. Estamos fazendo isso com peixes. Isso possibilitaria, sem sacrificar os animais e com uma pequena amostra de sangue, detectar se tem alguma contaminação por mercúrio e quanto isso está afetando seu metabolismo.
Voltando às soluções baseadas na natureza, quais são os principais exemplos entre os peixes da Amazônia?
Quando a gente fala de soluções baseadas na natureza, estamos buscando organismos que, durante o processo evolutivo, desenvolveram alternativas para lidar com mudanças no ambiente. Pegue, por exemplo, o pirarucu. É um peixe de respiração aérea. Se tem oxigênio na água, tudo certo. Se não tem, tanto faz, pois ele respira o ar que está acima da coluna d’água. A natureza produziu uma solução interessante. O pirarucu cresce 15 quilos no primeiro ano de vida, por isso é uma solução fantástica para a segurança alimentar. Mas houve um conjunto imenso de erros no uso dessa solução. O pirarucu virou um peixe exótico. Invadiu represas no estado de São Paulo, na Flórida e em outros lugares. Esses lugares viraram um inferno. Precisamos estudar a biologia desses animais, mas também compreender que existem limites. O tambaqui é outro peixe fantástico, de respiração aquática. Ele é capaz de expandir os lábios inferiores. Quando não tem oxigênio na água, ela vai para superfície e usa os lábios para canalizar o primeiro filme da coluna d’água até as brânquias. Esse filme está em contato com o ar e é mais rico em oxigênio. Nossos trabalhos recentes mostraram que o tambaqui é capaz de viver em ambientes extremamente ácidos. Nós conseguimos levar o tambaqui a um ambiente com pH 3,5, e ele consegue sobreviver razoavelmente bem. Tem um custo, que é crescer menos e comer mais, mas ele se adapta. A natureza tem um conjunto imenso de soluções desenvolvidas ao longo de milhões de anos. O problema é que as mudanças climáticas estão acontecendo a uma velocidade muito rápida, incompatível com as respostas biológicas.

Seu grupo tem uma boa estrutura para realizar experimentos. Que tipo de estudo funciona melhor no laboratório e o que é melhor fazer no campo?
Aquilo que a gente precisa controlar e estudar seu impacto específico, é melhor fazer no laboratório. Já o que a gente quer estudar de forma mais ampla e sinérgica, é melhor ir para a natureza e coletar. Temos uma torre na floresta em que é possível coletar informações relacionadas a temperatura, CO2 [dióxido de carbono], umidade, luminosidade. Por meio de radiotransmissão, essas informações chegam aos computadores do laboratório a cada minuto. Os computadores, por sua vez, regulam máquinas que reproduzem essas condições, em tempo real, dentro do laboratório. Temos quatro salas, uma de controle, que reproduz o que está nas florestas, e as outras três simulam os cenários brando, intermediário e drástico, de acordo com as equações do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima] para o ano 2100. Nessas salas incubamos, então, peixe, camarão, planta e analisamos o que acontece com esses organismos. De certa forma, o que a gente faz nessas salas é procurar as informações genéticas que os organismos desenvolveram durante o processo evolutivo. A genética molecular e a biologia molecular hoje têm ferramentas fenomenais para estudar essas coisas.
Quem participa dessa empreitada?
O programa dos INCT [Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia] nos deu um conjunto ferramental extremamente importante. Estamos na terceira versão do nosso INCT, que se chama Adapta [Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Adaptações da Biota Aquática da Amazônia]. Há um conjunto significativo de laboratórios participando do projeto. Temos vários colaboradores do exterior que vêm passar algum tempo aqui ou enviam seus estudantes. Isso deu outra dinâmica ao processo, porque a ciência se desenvolve a partir da abordagem de novas questões. Temos uma diversidade biológica imensa no país, mas estamos muito atrasados no que se refere à inovação relacionada à biodiversidade. Precisamos avançar mais rapidamente. Eu estava contando ontem para os meus alunos sobre um trabalho que li a respeito da produção do pacu – um peixe muito comum por aqui – em Mumbai, na Índia. Os camaradas têm uma piscicultura avançada para produzir alevinos de pacu, mas depararam com um parasita diferente atacando os animais e procuraram a universidade local para resolver o problema. Eles estão interessados na produção de proteína e a biologia do peixe é essencial para otimizar o processo.
Neste ano, você já publicou 16 artigos. Os temas são bem variados: ecologia de peixes, de girinos, segurança alimentar, qualidade da água nos rios, até um sobre ecologia dos mosquitos. Qual é o denominador comum? O que mais mobiliza o seu grupo?
Qualidade de vida e segurança alimentar: isso tem norteado bastante o nosso trabalho. E o impacto das mudanças ambientais e da poluição. Com relação aos mosquitos, o que aconteceu é que um dos participantes do nosso INCT estudava o impacto da criação de peixes sobre ovos de mosquitos que eram colocados na beirada dos tanques de aquicultura. Esse pesquisador acabou falecendo e deixou um aluno de doutorado, que veio trabalhar comigo para finalizar a tese. Usamos as salas climáticas para estudar as gerações dos mosquitos. Observou-se que, em cenários mais extremos, o número de gerações de mosquitos vai aumentando de forma significativa. Mas a minha especialidade mesmo é fisiologia e bioquímica de peixes tropicais de água doce. Se você me mostrar peixes de água salgada, vamos aprender juntos.
Qual parte do trabalho lhe dá mais prazer hoje?
Formamos uma equipe muito competente. Minha esposa, Vera, bióloga como eu, tem trabalhado com genética. Eu faço mais a parte de fisiologia e bioquímica. Há vários colegas no laboratório, pesquisadores de pós-doutorado, estudantes de doutorado. Eu os chamo de “os meninos”, como dizemos de forma carinhosa aqui no Norte, incluindo as meninas. No laboratório, discutir as coisas com os meninos é um momento superlegal, é o que me encanta. A ciência tem de ser criativa para fazer as perguntas e os desenhos certos. Lembro-me de uma palestra que fiz na África do Sul, algum tempo atrás, sobre como montar um laboratório de sucesso em regiões desafiadoras. Posso falar isso de cadeira, não é? Estamos em Manaus, onde as águas escuras do Rio Negro e as águas do Rio Solimões correm lado a lado por quilômetros sem se misturar, formando o Rio Amazonas. Montei um slide com uma janela. Disse: “Sabe como você faz? Olha pela janela, o teu desenho experimental está lá”. Se você olhar o encontro das águas, a primeira pergunta a fazer é a seguinte: em que o peixe que vive do lado preto é diferente do que vive do lado branco? Pega o peixe de um lado. Pega o do outro. Está ali o desenho experimental. Você pega durante o período de cheia e vazante. Qual a diferença entre os peixes que estão contidos no rio e os que entram na floresta durante a vazante? Outro exemplo é o jaraqui, um peixe que migra mais de mil quilômetros pelo Rio Negro para vir desovar no encontro das águas. O que tem em comum entre o que está lá em cima, antes de começar a migrar, e o que está chegando aqui no encontro das águas depois de ter nadado mil quilômetros? Olhe pela janela e encontre um mundo de perguntas para responder.
Você tem uma grande atuação na gestão da ciência, em instituições como a Academia Brasileira de Ciências [ABC], a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência [SBPC], já foi diretor do Inpa. Como concilia o trabalho de gestor com a atividade de pesquisa?
Primeiro tem que ter uma conciliação com a família. Penso em ciência 24 horas por dia. Vou caminhar de manhã e estou pensando em como resolver uma questão. Aprendi muito nessas interações com a SBPC, com a ABC, na diretoria do Inpa, depois na diretoria de relações internacionais da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior]. Agora estou envolvido com um grande projeto chamado AmIT, que é o Instituto de Tecnologia da Amazônia, com Carlos Nobre [do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, IEA-USP]. Temos produzido um vasto conjunto de dados sobre a Amazônia e precisamos transformar essas informações em melhoria da qualidade de vida do povo. A ideia do AmIT é transformar essas informações em novos produtos, novos processos, e socializar isso tudo.
Qual é o tamanho do desafio?
Tem um monte de gente estudando a Amazônia e um monte de informações espalhadas pelo mundo inteiro. Com a inteligência artificial, é possível trabalhar rapidamente um volume muito grande de informações e colocar produtos novos no mercado. Quais são os gargalos das principais cadeias de valor na Amazônia hoje? A principal cadeia de valor é a do açaí, mas o açaí continua baseado no extrativismo, que uma hora pode acabar. É preciso encontrar alternativas, e a ciência pode dar respostas. Tem a questão da produção de proteínas em tempos de mudanças climáticas. Estou falando de 50 milhões de pessoas que vivem na Amazônia e dependem fundamentalmente de peixe como fonte de proteína. Mas os peixes estão vivendo próximo dos seus limites térmicos, é preciso encontrar alternativas. Há uma interação destrutiva do ser humano com a floresta e isso pode fazer com que vírus deixem seu hábitat natural e infectem novas espécies, incluindo a nossa. Isso pode não causar problemas, mas também pode gerar uma variante grave, como foi a Covid-19. O Instituto Evandro Chagas, aqui na Amazônia, tem um papel importante na identificação desses novos vírus e tem descrito coisas preocupantes. É preciso coletar esse conjunto de informações, inseri-lo em um banco de dados e produzir as respostas que a sociedade reclama. Precisamos deixar o achismo de lado e usar a informação científica como suporte na tomada de decisão.
Nossa revista se chama Poraquê, que é um peixe da Amazônia. Você já estudou o poraquê?
Escrevi um capítulo sobre o poraquê em um livro que se chama Fishes of the Amazon and their Environment, publicado pela Springer em 2011, mas o especialista mesmo, nesse grupo de peixes, é o José Alves Gomes, aqui do instituto. O grupo dos peixes elétricos é grande e endêmico da Amazônia. Quero sublinhar isso: endêmico da Amazônia. Há peixes elétricos na África, mas não pertencem ao grupo dos Gymnotiformes, como o poraquê. O estudo da fisiologia desse peixe sempre foi um desafio grande. Como ele consegue gerar uma energia tão forte assim? Os ribeirinhos aprenderam a lidar com isso. Eles não entram na mata em canoa de alumínio. Saem para pescar usando canoas de madeira, para se proteger. Esse animal usa essa propriedade não só quando caça, mas também ao se movimentar, porque emite energia e recebe de volta a informação do que está acontecendo ao redor. É uma estratégia adaptativa muito elaborada.
Já tomou choque de poraquê?
Nunca. Tive a felicidade de conversar com um indígena conhecido como Abacaxi: boa parte do que sei sobre a interação com o ambiente e sobre os cuidados com os poraquês aprendi com ele. Há muito o que aprender com os indígenas e os ribeirinhos. Eu estudava outro peixe, o jaraqui, no mestrado – aquele peixe migrador que sai lá na cabeça do Rio Negro e vem se reproduzir no encontro das águas. Eu estava trabalhando com uma professora do Instituto Oceanográfico da USP, Anna Emília Vazzoler [1936-1999], e encontrávamos cardumes imensos de jaraquis com 10, 15 mil indivíduos. No meio, tinha uns peixes diferentes e a gente não entendia por quê. Um belo dia, nosso barco quebrou e ficamos parados em uma praia à beira do rio Negro. Apareceu um cidadão que morava por perto, um ribeirinho de origem indígena. Contei o que a gente estava estudando e observei: “Mas eu encontro no meio desses peixes alguns que são diferentes e eu não sei por quê”. Esse cidadão, olhando-me profundamente, disse: “Mas, professor, é muito simples. Eles não são migradores, eles são moradores. São peixes mais velhos que não conseguem mais nadar. Ficam parados aqui no lago, atrás do rio. Quando veem que está descendo o cardume cheio de peixes com bastante vigor, nadando forte, acham que podem voltar para o sistema e se juntam ao cardume”. Marquei outra expedição, coletei os peixes no bendito lago, fiz as análises e eram exatamente iguais aos peixes diferentes que eu encontrava no cardume. Uma pesquisa científica pode ser resolvida ao interagirmos com o caboclo, com o ribeirinho, com o indígena da região que observam a natureza.

