
Foi uma dúvida sobre o comportamento das jararacas que motivou a pesquisa do biólogo brasileiro João Miguel Alves-Nunes, atualmente estudante de doutorado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP): “Acidentes com cobras acontecem porque elas mordem, mas o que faz com que elas decidam morder alguém?” A busca por essa resposta resultou em um trabalho publicado na revista científica Scientific Reports em 2024 e, no ano seguinte, retratado. Nesta quinta-feira (3/9) foi premiado na 36ª edição do Ig Nobel, a versão satírica do Nobel.
Alves-Nunes é o nono brasileiro a levar um Ig Nobel para casa. Aos 28 anos, ele viajou de avião para fora do país pela primeira vez na vida, até a Suíça, para receber uma estatueta inusitada, em forma de pé com cogumelos brotando, das mãos do economista indiano Abhijit Banerjee, laureado com o Nobel de Economia em 2019. “Fiquei muito feliz com o prêmio, sempre gostei de assistir”, comenta o biólogo. “Alguns trabalhos são malucos, meio esquisitos, mas importantes.” O lema do Ig Nobel, justamente, é selecionar estudos que primeiro façam rir, e depois pensar.
O tema geral do evento neste ano, fungos, deu origem a uma opereta interpretada por cientistas laureados com o Nobel, vestidos de cogumelos. Entre os vencedores do Ig Nobel, além do brasileiro, um grupo do Reino Unido e dos Estados Unidos foi reconhecido na categoria de biomecânica por criar uma definição científica para o beijo que se aplica não só a pessoas que trocam saliva, mas também entre formigas, aves e ursos polares: é o contato oral-oral não agressivo entre indivíduos da mesma espécie, com algum movimento de lábios e/ou boca e sem transferência de comida.
Já o prêmio de economia foi para uma equipe dos Estados Unidos, México e Canadá que demonstrou que pessoas das classes altas são antiéticas e tendem a roubar doces de crianças. Cientistas suíços, holandeses e alemães enterraram 1.000 pares idênticos de cuecas em mais de 25 países e as desenterraram dois meses depois. O grau de decomposição do tecido foi usado como indicador da saúde biológica do solo e garantiu a estatueta na categoria de ciências do solo.
No trabalho inusitado de sua autoria, Alves-Nunes, que à época fazia mestrado no campus de São José do Rio Preto da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e colegas do Instituto Butantan, em São Paulo, decidiram realizar um experimento para descobrir o que provocava o bote das cobras. “Usamos alguns modelos iniciais com balões e garrafas de água, com manequins, mas faltava algo mais real para simular um acidente com uma cobra. E o que melhor simula um ser humano? Um ser humano”, brinca.
O biólogo vestiu uma bota de proteção feita de algodão e recoberta com couro, e provocou as jararacas encostando levemente com o pé até elas reagirem. “Era uma bota bem reforçada, mas que não machucaria a cobra porque é macia, bem acolchoada”, afirma Alves-Nunes, que sempre gostou de bichos que causam medo, como serpentes, sapos, escorpiões e aranhas. “Minha família ficou horrorizada, mas eu gosto da adrenalina.” O biólogo levou quatro picadas de cobra, duas de cascavel em testes e duas de jararaca, durante o experimento, e chegou a ficar internado. “Descobri que sou alérgico ao soro e ao veneno, então precisei tomar doses menores por mais tempo para me recuperar”, conta.
Os experimentos foram realizados com 116 jararacas da espécie Bothrops jararaca de diferentes tamanhos e idades, todas vivendo em cativeiro. As provocações foram feitas em diferentes horários, temperaturas e partes do corpo dos animais, com intervalos de cinco dias entre os testes para reduzir o estresse.
As mais de 40 mil pisadas que o biólogo deu em mais de uma centena de serpentes – foram 30 cutucões em cada indivíduo a cada rodada de testes, seguindo diferentes parâmetros determinados pela pesquisa – corroborou os padrões registrados a partir dos acidentes: “Vimos que animais menores eram mais reativos nos experimentos, assim como são mais representativos na epidemiologia”, aponta Alves-Nunes. “Há mais fêmeas envolvidas em acidentes e aconteceu o mesmo no nosso estudo”, destaca o biólogo. As jararacas fêmeas, as menores e mais jovens também foram mais reativas no laboratório, sobretudo em temperaturas mais quentes. Toques na cabeça geraram mais reação do que os na cauda, que com mais frequência levam à fuga do animal.
Os experimentos foram feitos em 2021 e o artigo foi publicado originalmente em maio de 2024 na Scientific Reports, mas, em fevereiro de 2025, sofreu retratação. Isso significa que ele deixa de ter validade para a comunidade científica e não deve ser citado em outras pesquisas.
A decisão pegou o grupo de surpresa. “Fizeram denúncias de maus tratos e a revista entrou em contato com o comitê de ética para investigar, mas não pisamos nas cobras: foram toques leves, traduzidos como ‘steps’ no artigo, o que pode ter gerado confusão”, explica o autor, que atualmente pesquisa aranhas e escorpiões no doutorado. A nota de retratação publicada pelo periódico explica que houve discrepâncias entre o método empregado e o que tinha sido aprovado pelo comitê de ética, que não envolvia leves pisadas nem o uso de jararacas recém-nascidas.
O biólogo especialista em serpentes Paulo Bernarde, da Universidade Federal do Acre (Ufac), sem relação com o grupo paulista, ressalta que vítimas de acidentes com cobras quase sempre relatam que pisaram nos animais. “Tem gente que passa do lado da cobra e não é picado, então esse estudo mostra que o bote é um comportamento defensivo, não um ataque.” Em sua avaliação o artigo não deveria ter sido “despublicado”, pois traz resultados relevantes para a comunidade científica. “Foi um exagero”, opina.
O comitê do Ig Nobel não mantém registros sobre outros artigos retratados que tenham sido premiados, mas, para o júri, o estudo cumpre os critérios exigidos. “Não houve nada gravíssimo sobre a pesquisa que nos fizesse retirar a indicação”, afirma a bióloga Mercedes Okumura, coordenadora do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do IB-USP e curadora do Ig Nobel. “Premiamos pesquisas criativas, engraçadas e surpreendentes e acho que o Ig Nobel dado a pesquisas brasileiras mostra algo que já sabíamos: nossos cientistas são criativos”, avalia.
O experimento do grupo de Alves-Nunes foi inspirado em outro, realizado em 1988, na natureza, pelo biólogo Ivan Sazima, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e afiliado ao Instituto Butantan. “Ele calçava botas e cutucava as cobras para ver se elas reagiam”, conta Alves-Nunes. Sazima é coautor do estudo liderado pelo biólogo e o experimento de 1988 foi publicado no periódico Memórias do Instituto Butantan, que deixou de circular nos anos 1990.
A notícia do prêmio Ig Nobel animou os cientistas. “Vai dar visibilidade a esse problema dos acidentes que são muito comuns, especialmente em regiões pobres”, diz Alves-Nunes.

