
Qualquer pessoa pode se tornar um detetive de integridade científica. Foi essa ideia que levou um grupo de pesquisadores a lançar a Coleção de Guias sobre Integridade em Ciência Aberta (Cosig). Trata-se de um site que abriga 35 textos em formato pdf que funcionam como apostilas para quem quer se preparar para investigar sinais de má conduta científica. Alguns textos fornecem orientações básicas, como o que apresenta e define a expressão ‘revisão por pares pós-publicação’, um eufemismo em linguagem técnica para o trabalho dos detetives, que remexem e analisam artigos já publicados em busca de erros ou sinais de desvios éticos que passaram despercebidos pelos revisores e editores das revistas científicas. Outro exemplo é o manual que dá orientações para uso do PubPeer, uma plataforma em que é possível publicar comentários sobre artigos e é largamente usada pelos detetives de integridade para apontar problemas e denunciar falhas, inclusive de forma anônima. Existe uma etiqueta a ser respeitada nos comentários: questionamentos embasados de forma objetiva e profissional são bem-vindos, xingamentos e ironias são desencorajados.
Há documentos que ensinam a mapear incoerências em gráficos, a detectar diferentes tipos de plágio e de manipulação de imagem, a identificar problemas nas citações de artigos científicos ou, ainda, a verificar se uma pesquisa com seres humanos teve aprovação ética para ser realizada. Outros trazem dicas especializadas, como analisar padrões de difração de raios X e interpretar dados em estudos de eletroquímica. A coleção de guias foi produzida nos últimos dois anos por um grupo de 22 especialistas em integridade científica, sob a coordenação do biólogo computacional Reese Richardson, que faz pós-doutorado na Universidade Northwestern, em Evanston, nos Estados Unidos. Em junho, a Cosig foi apresentada oficialmente em um artigo publicado na revista PLOS Biology. Richardson defendeu a iniciativa como uma forma de proteger a ciência em um momento em que ela perde financiamento nos Estados Unidos e sofre ataques contínuos desferidos pelo próprio governo do país. “Queremos municiar os cientistas com ferramentas para preservar a integridade da literatura científica, justamente para impedir que grupos anticiência redefinam a integridade científica segundo seus próprios termos”, escreveu Richardson em seu site pessoal.


