A física da resistência

Pesquisadora Hala El-Khozondar, da Universidade Islâmica de Gaza, relata as dificuldades de fazer ciência em um país em guerra

A física palestina durante palestra na conferência da Academia Mundial de Ciências (TWAS) no Rio de Janeiro, em outubro de 2025 //Mario Masques/TWAS

“Oh, parece Gaza!”, disse a física palestina Hala El-Khozondar em tom saudoso. “Lá também temos um mar, o Mediterrâneo, e pequenas lojas e quiosques de suco na faixa de areia.” Da cobertura do hotel na Barra da Tijuca, na região Sudoeste do Rio de Janeiro, ela mirava a orla da avenida Lúcio Costa, tingida de dourado pelo sol poente. Era 30 de setembro de 2025 e uma brisa fresca aliviava o calor de mais cedo. Ela estava no Brasil havia menos de dois dias e, na manhã seguinte, faria uma apresentação na 17ª Conferência Geral da Academia Mundial de Ciências (TWAS) sobre um tema do qual pouco se fala: como é fazer pesquisa em ambientes envolvidos em conflitos.

Hala El-Khozondar conhece na pele o problema. Nascida em Gaza e graduada em física na Universidade de Birzeit, fez doutorado nos Estados Unidos e pós-doutorado na Alemanha. De volta à Palestina no final dos anos 1990, teve sempre de procurar colaborações com grupos do exterior para dar sequência ao seu trabalho de desenvolvimento de sistemas de captação de energia solar, de fibras ópticas para a transmissão mais rápida de dados e de sensores ópticos para o diagnóstico de doenças. Em seu país, faltavam recursos e equipamentos, muitos deles proibidos de serem importados por imposição de Israel. A situação hoje é ainda pior.

“Tenho de me associar a grupos no exterior que tenham laboratórios e produzam dados que possam ser analisados ou comparados”, contou a física. Na época, ela estava havia dois anos e meio longe de casa. Foi a Londres trabalhar com o grupo do Imperial College em março de 2023 e não pôde mais retornar à Palestina. O motivo da permanência prolongada no Reino Unido é a guerra atual em sua terra de origem, iniciada em retaliação aos ataques do Hamas em outubro daquele ano, que deixaram até hoje cerca de 1.700 israelenses mortos, a maioria (quase 1.200) no dia 7 de outubro. Nesse mesmo período, a ofensiva das forças militares de Israel contra o Hamas já matou mais de 75 mil palestinos e foi classificada pela Organização das Nações Unidas como genocídio.

A pesquisadora palestina conversou com este repórter na ocasião e, mais recentemente, por WhatsApp. Contou como tem sido o esforço para realizar suas pesquisas e administrar aulas na Universidade Islâmica de Gaza, onde é professora, para os alunos da graduação e da pós-graduação durante a guerra, que matou alguns deles. Leia a seguir os principais trechos das entrevistas.

Como é fazer ciência em condições de conflito constante? 

É muito desafiador. Desde que comecei a fazer pesquisa em Gaza, após terminar o doutorado, sempre enfrentei muitos desafios. Faltam recursos e tenho de me associar a grupos no exterior que tenham laboratórios e produzam dados que possam ser analisados ou comparados. Lá não temos acesso a periódicos, livros e equipamentos que estão disponíveis em países desenvolvidos. Preciso viajar para entrar em contato com pesquisadores que têm dados concretos ou problemas reais que eu possa contribuir para resolver.

Como é ir ao exterior para fazer pesquisa? Onde busca recursos?

Sempre tive dificuldade em sair para participar de uma conferência ou para ir a um instituto no exterior. Sou membro do Centro Internacional de Física Teórica Abdus Salam (ICTP), em Trieste, na Itália, e recebo uma bolsa de estudos. De tempos em tempos, vou a Trieste, onde há uma biblioteca muito boa, além de acesso a muito material via internet. Tenho bolsas de estudos do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) e da Fundação Alexander von Humboldt (AvH), que me permitem viajar para a Alemanha. Já passei verões trabalhando na Universidade Técnica de Munique e na Universidade de Kiel, ambas na Alemanha. Mantenho colaboração com grupos de Munique e adoro voltar para lá para encontrar meus colegas e trabalhar com eles. Também estabeleci parcerias com pesquisadores na França e no Canadá. Em Gaza, dou aulas o ano todo e, no verão, quando deveria relaxar, ir à praia e curtir a família, aproveito para fazer pesquisa no exterior. Estou sempre procurando bolsas para outros países. Me arrependo de não ter passado mais tempo aproveitando o mar em Gaza porque perdemos tudo nos últimos anos [desde que o exército israelense ocupou a região após o ataque de outubro de 2023 do Hamas].

Como é a carreira de um pesquisador em Gaza?

É muito difícil. Um professor universitário, além de dar aulas, precisa fazer pesquisa e publicar em periódicos de alta qualidade, para ser promovido. Em Gaza, quase não temos recursos para isso.

Você publicou cerca de 240 artigos. Como conseguiu sob essas condições?

Como disse, procuro oportunidades em centros de pesquisa no exterior, trabalho um período com os grupos de lá e tento publicar antes de ir embora. Às vezes, temos as ideias durante esse período, retorno para Gaza e trabalho nelas, para, em seguida, publicar. Em certas ocasiões, chego com uma ideia, discuto com meu anfitrião e surgem outras. Atualmente estou no Imperial College, de Londres, onde trabalho com pesquisadores do Departamento de Materiais da Faculdade de Engenharia. Fui para lá em março de 2023 pensando em uma ou duas propostas. Uma delas resultou em um trabalho que deve ser publicado em breve. No ICTP, participo do grupo de física da matéria condensada. Já tenho duas publicações com eles e, em breve, mais uma, espero.

Suas publicações não se concentram em uma área específica. Por quê?

Porque eu preciso me encaixar ao grupo ao qual vou me unir. Trabalho com eletrólise da água, eletrodos sensíveis à luz, células solares e energias renováveis. Em Munique, por exemplo, fiz estudos com sensores que medem tensões e deformações, em particular em turbinas eólicas. Elas são construídas com placas de fibra muito longas, que podem começar a rachar por causa do acúmulo de gelo ou de ventos fortes e danificar a pá do aerogerador.

Qual sua principal contribuição à física?

Fiz meu doutorado na Universidade Estadual do Novo México, nos Estados Unidos, em cromodinâmica quântica [área da física que explica o comportamento de partículas que formam os prótons e nêutrons]. Minha tese foi a contribuição mais importante do início de minha carreira. Desenvolvi uma equação que descreve o movimento dos quarks, partículas presentes nos prótons e nos nêutrons, em determinadas situações. Ao resolver a equação, observa-se que surgem novas partículas. Algumas já foram observadas, outras ainda não. Talvez alguém as encontre no futuro. Isso é divertido. Simplifiquei uma equação que havia sido criada pelo físico holandês Gerard ‘t Hooft, que recebeu o Nobel de Física em 1999, ano em que defendi minha tese. Depois, fiz estudos com modelagens eletromagnéticas para diferentes tipos de guias de onda, estruturas que conduzem a luz de um ponto a outro, como as fibras submarinas que transmitem o sinal de internet entre os continentes. Fico muito empolgada com as áreas em que trabalho, porque sei que têm aplicação na vida real.

Foi preciso desenvolver a habilidade de trabalhar em diferentes áreas da física.

Aconteceu por necessidade. Quando vou a conferências, vejo palestrantes que conseguiram se concentrar em um único tópico e se tornaram líderes de grupo. São pessoas muito requisitadas. Sou modesta. Faço o que posso diante dos desafios que vivencio, mas gosto disso.

Como é o ambiente de pesquisa na Palestina?

Sempre foi difícil e hoje está pior. Nem sei se as instituições continuam funcionando. A falta de infraestrutura para pesquisa sempre me preocupou. Durante meu doutorado, nos Estados Unidos, eu pensava: ‘Se voltar para Gaza, o que vou fazer?’ Eu não desejava ter outra cidadania nem viver fora de Gaza. E lá seria muito difícil fazer trabalhos experimentais por falta de equipamentos, que não podiam ser importados por imposição do estado ocupante. Além disso, os equipamentos são caros. Por isso, escolhi a física teórica. Tudo o que é necessário é o meu cérebro e um computador. A maioria dos pesquisadores em Gaza sofre com a falta de equipamentos e materiais para realizar seus estudos. 

E como é dar aulas?

Também é um desafio. Tem sido assim desde que Israel ocupou Gaza em 1967, quando eu tinha dois anos. Nem sempre se pode andar pelas ruas. Às vezes, o exército israelense bloqueia os postos de controle existentes nas estradas que conectam as cinco províncias de Gaza, impedindo a passagem das pessoas. O campus da minha universidade fica na cidade de Gaza, na região central. Integro o Departamento de Engenharia, porque, além de física, fiz uma formação complementar em engenharia elétrica. Quando meus alunos não comparecem às aulas, sei que é porque não puderam vir. Então, de tempos em tempos, dou uma aula nova para aqueles que faltaram. Eles têm de aprender em poucas horas o que os colegas viram em semanas. Fui uma das primeiras do departamento a gravar minhas aulas em vídeo, para que os alunos possam assistir em outros momentos. Quando a pandemia de Covid-19 começou e passamos a dar aulas on-line, eu já tinha boa parte do material gravado. Após o início da guerra atual, em outubro de 2023, ficamos quase um ano sem contato com os alunos. Aí, a universidade propôs que fizéssemos algo para que os alunos se formassem.

O que foi feito?

Voltei a dar aulas por meio de videochamadas. Quando começamos, nem tudo estava destruído. Mas, com o tempo, as coisas foram ficando difíceis e nem das videochamadas eles conseguiam participar. Então, passamos a disponibilizar apenas as aulas gravadas. Outra forma de contato que mantive com eles era por WhatsApp. Quando há prova e ocorre algum problema, eles entram em contato comigo. Admiro meus alunos porque vivem em um ambiente muito difícil. Além de estudar, eles passam muito tempo em filas. Fila para carregar o celular ou o laptop, para conseguir água, comida. Eles têm muitas tarefas além de estudar e, mesmo assim, fazem um excelente trabalho.

É preciso ter muita vontade e coragem para enfrentar essa situação.

Eles têm atitudes muito corajosas. Percebi desde o primeiro dia em que voltei a dar aulas depois do início da guerra de 2023. Quando conseguimos usar o Zoom e eles têm tempo e bateria no laptop, me pedem para continuar dando aula. Noto que querem se manter ocupados, para não pensar na casa ou nos parentes que perderam ou nas condições em que estão vivendo. Nunca vi alunos tão conscientes e com tanta vontade de aprender em situação difícil. Eles querem adquirir conhecimento para tentar mudar suas vidas mais adiante. Depois que voltamos às aulas, cinco alunos não fizeram as provas. Criei um grupo no WhatsApp e escrevi: “Se tiverem uma justificativa, podem dizer”, porque talvez tivessem ficado sem energia ou acesso à internet. Imediatamente, outro aluno escreveu o nome de um dos que havia faltado e disse que havia sido morto pelos israelenses. Os outros quatro também morreram. Foi um choque muito grande para mim, que já estava longe de minha família. Tive de buscar forças para superar e continuar ajudando meus alunos. Atualmente [segundo semestre de 2025], a partir do Reino Unido, dou aulas para os alunos de mestrado. Se eles têm dúvidas, fazemos uma videochamada. Antes de vir para a conferência da TWAS no Rio, um deles foi morto.

Onde encontra força para continuar?

A maior parte vem da minha fé. Acredito que, por algum motivo, Alá nos reservou essa experiência difícil. Também acredito que ela terminará. Não sou jovem e, às vezes, fico muito emotiva.

As universidades são públicas na Palestina?

Quase todas são públicas, mas cobram taxas, porque o governo não repassa muito dinheiro. Muitos estudantes, por causa da situação atual, não conseguem pagar as mensalidades e não podem assistir às aulas ou, ao menos, não podem ter acesso a suas notas. A universidade permite que façam as provas, mas não que vejam as notas. Ou eles se formam, mas não obtêm o certificado, que fica retido até as taxas serem pagas. Penso que, em outros países, as pessoas talvez não saibam dessa situação. Elas poderiam tentar adotar um estudante que está passando por dificuldades e pagar suas mensalidades. 

Qual o tamanho do sistema universitário? Ainda existem muitas universidades em funcionamento?

Em cada cidade da Palestina, havia ao menos uma universidade. Em Gaza, havia umas 12 universidades, algumas grandes e muito boas, com campi muito bonitos. Boa parte delas está completamente destruída. Fico indignada. Como destruíram as universidades e ninguém na comunidade internacional fez nada para impedir?

Como era o acesso à educação em Gaza e no restante da Palestina antes desta guerra?

Até o ensino médio as escolas são públicas e gratuitas. Com a chegada de Yasser Arafat (1929-2004) ao poder no final dos anos 1980, começaram a surgir escolas particulares. Quem tem dinheiro e quer que seu filho aprenda mais, por exemplo francês ou outros idiomas, os colocam nas escolas particulares. No final do ensino médio, os alunos fazem um exame nacional que serve de qualificação para entrar no ensino superior. A sociedade palestina é muito bem-educada. Você não encontrará pessoas que nunca foram à escola. As famílias, desde que possam sustentar seus filhos, querem que eles frequentem a escola e a universidade.

Quais as áreas da pesquisa mais avançadas no país?

Temos cientistas muito bons em física, matemática, agricultura, engenharia e medicina. Não temos condições de competir com cientistas laureados com o Prêmio Nobel, mas fazemos o nosso melhor. As áreas em que mais se produz são medicina e engenharia.

E como é a interação com cientistas estrangeiros ou de Israel?

Depende. Vamos deixar de lado os cientistas israelenses, porque não vejo nenhuma ação concreta deles, nunca condenaram os ataques de Israel nem antes da guerra atual. Sobre os de outros países, posso relatar minha experiência pessoal. Na maior parte das vezes em que me candidatei a fazer pesquisa em uma instituição anfitriã no exterior, escrevendo uma carta com meu currículo e minha proposta de trabalho, recebi como resposta: “OK, estamos interessados. Podemos trabalhar juntos”. Até o momento, não tive dificuldade em me conectar com pessoas da comunidade internacional. Ainda mantenho uma ótima relação com meu orientador no doutorado, o físico Matthias Burkardt, da Universidade Estadual do Novo México. No início da guerra atual, ele encontrou meu nome no site do Imperial College e escreveu para o coordenador do grupo perguntando se eu estava bem.

O que a levou a escolher a física?

No ensino fundamental, eu lia muito e queria entender cada vez mais sobre a natureza. Ao ir para a faculdade, minha primeira opção era biologia. Me candidatei à Universidade Birzeit, em Ramallah, na Cisjordânia, onde estava uma irmã mais velha, e à Universidade Nacional An-Najah, em Nablus, também na Cisjordânia. Fiz as provas de admissão e enviei meus documentos. As aulas começaram, mas não recebi nenhum aviso. Quando meu pai descobriu que eu havia passado, já era tarde. Como me atrasei algumas semanas para fazer a matrícula, as turmas de biologia já estavam cheias. Havia uma vaga apenas em física. Tirei notas muito boas, mas queria cursar biologia. Na hora de fazer a matrícula no segundo ano, não encontravam meus dados para fazer a inscrição. Um dos meus professores de física passou várias vezes por mim e disse que, se quisesse ser física, ele me inscreveria em um minuto. Eu não queria, mas como estava acabando o prazo, aceitei. Depois, soube que ele havia escondido o arquivo com meus dados em seu escritório, porque vários dos meus professores diziam que eu era a melhor aluna de física. Mais tarde, vi que física era o que eu realmente queria fazer. Até frequentei algumas aulas de biologia por curiosidade, mas vi que não era para mim.

Enfrentou dificuldades como pesquisadora por ser mulher? 

Claro que sim. Não é fácil. Eu era a única mulher na minha turma na graduação. Havia inveja e competição. Eu era sempre uma voz solitária. Todos iam contra. Lembro-me de uma aula sobre relatividade geral. O professor nos deu uma prova para fazer em casa. Quando saiu o resultado, disse: “Todos foram mal, menos a Hala”. Aí, meus colegas escreveram uma carta dizendo que isso havia ocorrido porque eu tinha levado todos os livros da biblioteca. O professor pediu que eu os devolvesse e foi à biblioteca conferir quantos ainda estavam lá e quantos haviam sido retirados. Em seguida, ele me disse: “Está bem. Você pode levar os livros. Seus colegas reclamaram que você havia levado todos e que, por isso, eles não tinham ido bem na prova. Agora eu sei que eles estão mentindo.” Atualmente sou a única mulher professora no Departamento de Engenharia na minha universidade. No meu departamento, os colegas sempre votavam em homens para serem o chefe, porque havia um aumento salarial. Quando pararam de pagar o aumento e fizeram uma consulta para o novo chefe, todos indicaram meu nome.

Há muitas mulheres na ciência na Palestina?

Sempre há uma ou outra, mas elas são minoria. Na educação fundamental é diferente: a maioria dos professores é do sexo feminino. Somos um país muito conservador. Os palestinos consideram que a melhor coisa para uma mulher é casar e ter filhos, mas não proíbem as mulheres de irem para a universidade. 

Você poderia ter construído uma carreira fora do seu país. Por que escolheu voltar?

Devo dar o crédito ao meu pai e à minha mãe. Ela era dona de casa e se esforçava ao máximo para garantir que todos nós – tenho cinco irmãos e quatro irmãs – fôssemos à escola e à faculdade. Todos concluímos a universidade. Meu pai sempre achou que sempre deveríamos voltar para Gaza. Podíamos estudar em qualquer lugar, fazer o que quiséssemos, mas, no final, devíamos regressar para servir ao país, ao povo.

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