Amazônia atuou como fonte de carbono para a atmosfera entre 2010 e 2024

Em média, cada ano do período liberou 320 milhões de toneladas a mais de carbono do que absorveu

Em certos anos, incêndios florestais têm peso maior nas emissões da Amazônia do que o desmatamento, segundo estudo
Em certos anos, incêndios florestais têm peso maior nas emissões da Amazônia do que o desmatamento, segundo estudo // TV Brasil/Divulgação

Entre 2010 e 2024, a Amazônia emitiu mais carbono na atmosfera do que absorveu em 13 dos 15 anos. Apenas em 2011 e 2018, anos mais úmidos e com pouca atividade humana prejudicial à manutenção da floresta, como desmatamento e degradação vegetal e incêndios, a região amazônica retirou mais carbono do ar do que liberou, ainda assim em quantidades muito pequenas. 

Levando-se em conta todo o período, a Amazônia emitiu anualmente, em média, 320 milhões de toneladas a mais de carbono do que absorveu. Quanto mais carbono se mantém na atmosfera, mais o clima esquenta, além de o próprio desmatamento promover um aquecimento e redução de chuva. Os dados são de artigo publicado hoje na revista científica Nature.

Segundo a química Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), autora principal do estudo, os fatores que mais contribuíram para que o bioma tenha atuado como uma fonte (e não um sumidouro) de carbono foram as queimadas e o desmatamento. Os incêndios emitiram mais do que o próprio corte da vegetação em certos anos.

“São as atividades humanas, e não as mudanças climáticas, que estão acabando com a Amazônia”, diz Gatti. “O fogo virou o novo desmatamento. O tamanho da superfície queimada é um parâmetro muito importante para entender o balanço de carbono [a soma de tudo o que foi emitido e absorvido] da Amazônia.” O balanço foi calculado a partir de medições de alta precisão da concentração de carbono em 1.017 coletas de amostras de ar, obtidas com aviões de pequeno porte em quatro regiões da Amazônia entre 2010 e 2024.

O artigo calculou o peso dos principais fatores que levaram a Amazônia a liberar carbono em cada um dos 15 anos analisados: extensão da floresta desmatada e degradada; área de vegetação queimada; registros de temperatura e de chuvas; e ocorrência de importantes fenômenos climáticos, como o El Niño e o aquecimento das aǵuas tropicais do Atlântico Norte. Com essa montanha de dados em mãos, e por meio de análises estatísticas, a equipe coordenada por Gatti concluiu que os anos cobertos pelo estudo poderiam ser divididos em três padrões, cada um deles com particularidades.

Um grupo era caracterizado por anos mais úmidos, com pouca atividade humana que alterou a floresta e sem fenômenos climáticos significativos. Essa leva incluiu os anos de 2011 a 2014 e de 2017 e 2018. Em média, cada ano desse período liberou 110 milhões de toneladas de carbono a mais do que absorveu. Em dois desses anos (2011 e 2018), quando analisados individualmente, a floresta ainda conseguiu retirar mais carbono da atmosfera do que liberou, conforme citado no início deste texto. Esse subperíodo mostra que a floresta quase compensa as emissões antrópicas de carbono, quando o ano é chuvoso e as atividades humanas são relativamente baixas.

Um segundo padrão de emissões foi identificado entre 2019 e 2022. Esses foram anos marcados por taxas elevadas de desmatamento (aumento de 97% em relação ao grupo dos anos chuvosos) e de queimadas, sem, no entanto, a ocorrência de eventos climáticos extremos. Nesse período, a Amazônia emitiu anualmente, em média, 430 milhões de toneladas de carbono a mais do que absorveu. 

A situação foi ainda mais dramática no terceiro grupo, que abrangeu os anos de 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024. Foram anos de El Niño ou de aquecimento do oceano Atlântico Tropical Norte, muito quentes e secos, condição perfeita para a ocorrência de incêndios, cuja incidência disparou na Amazônia. Nesse período, cada ano liberou, em média, 490 milhões de toneladas a mais de carbono do que absorveu. “Nosso estudo mostrou que apenas 1% dos incêndios na Amazônia ocorrem naturalmente e 99% foram provocados pelo homem”, comenta Gatti.

“Talvez já esteja ocorrendo hoje aquele cenário apocalíptico projetado pelos modelos climáticos para meados deste século, em que o colapso da Amazônia a levaria a ser uma fonte de carbono, e não mais um sumidouro”, comenta o climatologista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), um dos coautores do estudo. “É isso o que mostram as observações climáticas e de fluxos de carbono, sobretudo no leste da Amazônia. Essa é a área mais desmatada, onde a estação seca está mais quente e mais longa e a chuvosa está mais curta, o que aumenta o risco de incêndios.”

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