
Há exceções, como os cactos, que soltam suas flores nas noites quentes do verão, mas é quando as chuvas chegam, em maio ou junho, que a maioria das plantas acorda após a estiagem e recomeça a crescer e a florir. Elas trazem o branco e tons fortes de lilás, vermelho e amarelo à paisagem até então cinza da Caatinga, a vegetação natural que predomina no Nordeste brasileiro.
Depois de examinar 112 levantamentos anteriores com um mínimo de 20 espécies cada, pesquisadores do Brasil e do Reino Unido coletaram dados de 1.775 espécies de plantas com flores da Caatinga, também chamadas de angiospermas.
A maioria (52%) são de grande porte, incluindo árvores como o ipê-cascudo (Handroanthus spongiosus), de até 10 metros (m) de altura e flores de um amarelo intenso, que desabrocham entre outubro e novembro durante dois a cinco dias, e a barriguda (Ceiba glaziovii), que pode chegar a 18 m de altura, cuja copa se enche de flores brancas entre o final da estação chuvosa e o início da estação seca.
Os outros 48% são plantas de baixo porte, como as ervas, trepadeiras e epífitas como as orquídeas e bromélias, de acordo com o levantamento conduzido pelo botânico Paulo Gomes. É o resultado de sua tese de doutorado, desenvolvida na Universidades Estadual de Campinas (Unicamp), com colegas da Universidade Federal do Ceará (UFC) e do Kew Gardens, do Reino Unido (The Botanical Review, junho de 2026).
A maioria das espécies (1.456) cresce tanto na Caatinga quanto em outras áreas do continente, como as florestas secas da Bolívia ou a Mata Atlântica e a Amazônia, as duas florestas úmidas que a cercam. Outras 218 são endêmicas (exclusivas), encontradas apenas na Caatinga. As restantes 101 vivem também em ambientes secos ao redor, como o Cerrado, eventualmente perdendo as folhas durante a época de seca, uma estratégia evolutiva que reduz a perda de água.
Em outro levantamento (Biological Conservation, novembro de 2025), esse grupo de pesquisadores verificou que 75% das espécies de plantas da Caatinga são classificadas como raras, algumas com risco alto de extinção, por formarem populações pequenas e viverem em áreas restritas.
É o caso de uma erva de pequenas flores brancas, a vassourinha-de-botão (Borreria apodiensis), encontrada somente na Chapada do Apodi, na divisa entre os estados do Rio Grande do Norte e do Ceará, e considerada em perigo por causa da perda de hábitat. Também classificada como em perigo de extinção está o umbu-cajá ou cajá-umbu (Spondias bahiensis), árvore de até 8 m de altura da qual despontam cachos de pequenas flores brancas geralmente em novembro ou dezembro.
Incluindo outros grupos, além das angiospermas, a Caatinga deve abrigar cerca de 5 mil espécies, adaptadas ao clima semiárido severo, marcado pela insolação intensa e escassez de água, que limitam o desenvolvimento das plantas. É bem menos do que o registrado na Mata Atlântica, o ambiente natural mais diversificado no Brasil, que abriga cerca de 17 mil espécies de plantas, das quais cerca de 8 mil exclusivas.
A maioria das espécies da Caatinga ainda não foi avaliada pelos especialistas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a maior e mais antiga rede ambiental do mundo, que indica os eventuais riscos de extinção de plantas e animais e propõe estratégias de preservação. Apenas 7,9% da área ocupada por esse tipo de vegetação nativa encontra-se preservada por meio de unidades de proteção ambiental.
Gomes, atualmente em estágio de pós-doutorado no Instituto Tecnológico Vale, em Belém (PA), indica outro grave problema da região: a degradação ambiental. “Mais da metade da área da Caatinga já foi desmatada, e parte das áreas remanescentes está em risco de desertificação”, enfatizou.

