Canadense Anne Carson ganha o Nobel de Literatura

Difícil de ser classificada, sua obra é marcada pela experimentação e pelo diálogo entre o mundo antigo e questões contemporâneas

Carson, vencedora do Nobel de Literatura
Carson, vencedora do Nobel de Literatura // Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach

Amor, desejo, perda e luto estão entre os temas recorrentes na obra da canadense Anne Carson, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, anunciado nesta manhã. Poeta, ensaísta, tradutora e professora de estudos clássicos, ela tem uma obra difícil de ser classificada, marcada pela experimentação e pelo diálogo entre o mundo antigo e questões contemporâneas.

Os livros de Carson começaram a ser publicados há cerca de 10 anos no Brasil. Até hoje, saíram oito títulos. O primeiro foi O método Albertine (Edições Jabuticaba, 2017), vertido para o português por Vilma Arêas, professora aposentada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Fernando Guimarães.  “Ela é uma autora que vem atraindo a atenção dos pesquisadores brasileiros sobretudo nos últimos cinco anos”, comenta a tradutora Julia Raiz, que defendeu tese de doutorado sobre Carson na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 2022.

Raiz traduziu três livros de Carson para a editora carioca Bazar do Tempo. Entre eles figura Eros, o doce-amargo, ensaio publicado originalmente em 1986 e que chegou ao Brasil em 2022. A obra é desdobramento da tese de doutorado da canadense defendida em 1981, no Departamento de Estudos Clássicos da Universidade de Toronto. “A partir da poesia lírica grega antiga, sobretudo de Safo, ela investiga como os autores escreveram sobre a paixão ao longo dos séculos”, diz a tradutora.

Antes, Carson publicou o poema Canicula di Anna (1984), que marcou sua estreia na literatura. Os versos foram tirados de um livro ilustrado que a autora nunca lançou. “Ela tinha uma predileção pela arte visual e produzia desenhos e colagens, mas como achou que seus desenhos não atraíam tanta atenção, decidiu transformar as legendas dessas ilustrações em poemas”, conta a filósofa carioca Irene Viveiros de Castro, que atualmente realiza pesquisa de doutorado sobre Carson na Universidade Toulouse Jean Jaurès, na França.

Nascida em 1950, em Toronto, Carson graduou-se em estudos clássicos pela Universidade de Toronto, em 1974. Mais tarde, ingressou na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, como professora assistente e abandonou a instituição em 1987. Lecionou em outras universidades dos Estados Unidos, como a da Califórnia em Berkeley; e do Canadá, a exemplo da McGill, mas não conseguiu a titularidade em nenhuma delas. Hoje está aposentada da vida acadêmica.

De acordo com Castro, a autora publicou mais artigos e ensaios acadêmicos do que poesia ao longo da década de 1980. “Foi nos anos 1990 que ela se tornou reconhecida como poeta, e entre 2000 e 2010 passou a experimentar com outras formas de produção artística como a performance, uma experimentação que continua até hoje”, relata a pesquisadora, que escreveu um verbete sobre Carson na enciclopédia on-line Mulheres na Filosofia, da Unicamp.

São dessa época livros como A beleza do marido: Um ensaio ficcional em 29 tangos, publicado originalmente em 2001 e lançado no Brasil em 2024, pela Bazar do Tempo, em que fala sobre um casamento em ruínas. “No livro, há duas menções ao Brasil. Em uma delas, o marido visita o Brasil e escreve uma carta para a protagonista. Em outra passagem, a mulher conversa com um amigo, que cita, sem mencionar o título, um filme brasileiro com cenas de tortura durante a ditadura militar no país”, conta Raiz, que traduziu a história. A obra valeu a Carson em 2001 o prêmio T.S. Elliot, do Reino Unido, um dos mais importantes no gênero da poesia.

Da mesma safra, Autobiografia do vermelho (1998) é um de seus livros mais célebres. A obra, publicada no Brasil em 2021 pela Editora 34, foi definida pela própria autora como um “romance em versos”. A narrativa parte de um fragmento do poeta grego Estesícoro sobre Gerião, monstro vermelho morto por Héracles (ou Hércules). Carson transporta a história para o presente e transforma seus protagonistas em dois jovens: Gerião, sensível e introspectivo, e Héracles, por quem ele se apaixona. “A história parece ser ambientada nos Estados Unidos, mas eles também visitam a Argentina e o Peru em um contexto que remete ao da década de 1970, durante ditaduras militares”, prossegue Raiz.

A relação com a filosofia ocupa um lugar importante na trajetória da autora canadense. “Em sua obra, ela mantém interlocução com vários filósofos, como Platão, e considera sua própria atividade de escritora uma forma de pensamento e reflexão”, afirma o filósofo Rafael Zacca, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que pesquisa a produção de Carson há dez anos. “Ela escreve prosa e poesia, mas seria melhor compreendê-la como uma ensaísta. E o ensaio, nos moldes em que escreve, pertence a uma tradição que nasce com a filosofia e, com o tempo, se torna um ponto de ligação entre esse campo e o da literatura.”

Entre 2001 e 2015, Carson traduziu obras dos gregos Sófocles, Eurípides e Ésquilo, além de fragmentos de Safo. “Em paralelo às traduções mais filologicamente rigorosas,  começou a lançar versões menos ortodoxas de tragédias gregas, como Antigonick [2012], sua tradução de Antígona, de Sófocles”, diz Castro. “Ela declarou na época que estava entediada com o próprio trabalho e começou a fazer colaborações com outros artistas, a exemplo do marido, o artista visual Robert Currie.”

Carson adora ler as obras em voz alta em público. “Por ocasião da publicação de Antigonick, ela fez leituras públicas da obra junto a pessoas das artes e da filosofia, como Judith Butler, conhecida pelos estudos sobre performatividade nas questões de gênero e sexualidade”, diz Zacca, da Uerj. “Essas questões têm algum destaque na produção artística e teórica de Carson.”

Em 2024, a autora revelou ter sido diagnosticada com a doença de Parkinson. Desde então, passou a praticar boxe, com o objetivo de preservar a coordenação dos movimentos e exercitar a atenção. O problema de saúde, porém, não interrompeu sua produção. Naquele ano, publicou a coletânea de textos Wrong Norma [Norma errada] e, no ano seguinte, lançou ensaios e poemas em revistas como London Review of Books e Paris Review.

Atualmente, Carson vive entre os Estados Unidos e a Islândia. Foi neste último país, “ouvindo o vento”, que soube ter recebido o Nobel, como informou a Academia Sueca.

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