Candidata brasileira a vacina contra a malária entra na fase de teste em seres humanos

Em desenvolvimento há 16 anos, formulação visa a proteger contra a forma da doença mais comum no país

Frascos do antígeno e do adjuvante da candidata a vacina brasileira Vivaxin
Frascos do antígeno e do adjuvante da candidata a vacina brasileira Vivaxin //Laura Mota

Após 16 anos de pesquisa em laboratório, uma candidata a vacina contra a forma de malária predominante no Brasil, causada pelo parasita Plasmodium vivax, chega à etapa de avaliação em seres humanos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou no começo de outubro que a equipe responsável pelo potencial imunizante Vivaxin, desenvolvido pelo Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (CTVacinas-UFMG) em colaboração com a Universidade de São Paulo (USP) e o laboratório farmacêutico brasileiro Cristália, coloque em campo o chamado teste clínico de fase 1.

O objetivo desse ensaio, previsto para começar em dezembro próximo ou em janeiro de 2027, é avaliar a segurança da vacina, as reações à aplicação e a sua capacidade de estimular uma resposta imunológica nos participantes do estudo. Com duração prevista de um ano, o ensaio envolverá 48 voluntários saudáveis, de 18 a 59 anos, sem infecção prévia por malária. Serão administradas três doses da formulação, com intervalo de 28 dias entre elas. Um grupo controle receberá placebo, substância inerte sem qualquer princípio ativo.

Durante o estudo, os participantes, recrutados em Minas Gerais, passarão por rigoroso controle médico, com coleta frequente de amostra de sangue, para averiguar possíveis efeitos adversos, bem como sua eficácia imunológica. O teste será coordenado pelo CTVacinas e conduzido no Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG.

“Tudo correndo bem, no fim de 2027 daremos início à fase 1B do ensaio clínico, com 24 participantes, todos da Amazônia. Eles receberão a dose da vacina selecionada na fase 1A”, esclarece o imunologista Ricardo Gazzinelli, fundador e coordenador do CTVacinas. O passo seguinte, a fase 2 dos testes clínicos, envolverá uma amostra ainda maior, na casa das centenas de pessoas, também da mesma região. “Nela, vamos ampliar a avaliação de segurança e imunogenicidade da Vivaxin. Já a eficácia será avaliada no ensaio clínico fase 3 a ser conduzido em áreas endêmicas na Amazônia. Incluirá alguns milhares de voluntários.”

Segundo Gazzinelli, dependendo dos resultados obtidos em cada fase do ensaio clínico, das autorizações regulatórias e das condições para realizar os estudos, o imunizante brasileiro poderá estar disponível para a população dentro de cinco a sete anos. “Antes, temos que avançar com os ensaios clínicos, demonstrar que a vacina é segura e obter os dados necessários para avaliar sua eficácia.”

Vacina inédita
Não há no mundo uma vacina aprovada contra a malária provocada pelo protozoário P. vivax, versão da doença predominante nas Américas e na Ásia. Os dois imunizantes recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M – atuam contra outra espécie do parasita, a P. falciparum, responsável por mais de 90% dos casos da enfermidade no planeta. Esse tipo de malária é mais comum na África Subsaariana, região do globo mais afetada pela doença e onde ela é endêmica.

De acordo com o Relatório Mundial da Malária 2025, divulgado pela OMS, foram registrados 282 milhões de casos da enfermidade em 2024. Por volta de 9,9 milhões (3,5% do total) foram causados por P. vivax. No Brasil, são notificados cerca de 120 mil casos sintomáticos de malária por ano, principalmente na região amazônica. Em torno de 80% dos doentes são infectados por essa espécie do parasita. Por isso, a importância de um imunizante que proteja as pessoas contra o microrganismo que circula no país.

“A malária vivax afeta principalmente populações economicamente menos favorecidas. Ela integra o grupo de doenças negligenciadas, do qual também faz parte a esquistossomose, que nem sempre atrai suficiente interesse da indústria farmacêutica”, esclarece Gazzinelli, que é professor do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. “Quem adquire a doença pode ficar mais de uma semana sem condições de trabalhar, o que provoca consequências socioeconômicas importantes.”

Programa de erradicação
Além do CTVacinas, participam do desenvolvimento do imunizante a USP, responsável pela concepção da proteína quimérica, o antígeno (molécula que aciona a resposta do organismo contra o parasita), e pela prova de conceito do imunizante, e o laboratório farmacêutico Cristália, responsável pela produção dos lotes clínicos. A empresa já demonstrou interesse em explorar comercialmente a vacina no futuro.

A principal forma de transmissão da malária é por meio da picada de fêmeas infectadas de mosquitos do gênero Anopheles, que inocula o Plasmodium no organismo. O parasita cai na corrente sanguínea e se espalha pelo corpo. Entre os sintomas mais comuns estão febre, calafrios e dor de cabeça. Grande parte dos casos graves está relacionada à infecção por P. falciparum, mas a malária causada por P. vivax também pode causar complicações, como anemia grave e problemas respiratórios, e levar à morte.

“Há um programa mundial voltado à eliminação da malária, que depende do tratamento de pacientes e de medidas de controle dos mosquitos transmissores. Mesmo com essas estratégias, interromper a transmissão é muito difícil”, destaca Gazzinelli. “Nossa candidata a vacina pode ser uma ferramenta importante para alcançar esse objetivo.” No Brasil, o Plano Nacional de Eliminação da Malária, lançado em 2015, tem como meta interromper a transmissão local da doença até 2035.

Proteína quimérica
Os estudos que dariam origem à Vivaxin começaram em 2010 em São Paulo sob a coordenação de um casal de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP e da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), responsáveis pela pesquisa básica da candidata a vacina, dos experimentos iniciais em laboratório aos testes pré-clínicos, em camundongos.

Imagem ampliada por microscópio mostra sangue infectado pelo parasita Plasmodium vivax
Imagem ampliada por microscópio mostra sangue infectado pelo parasita Plasmodium vivax // CDC/Dr. Mae Melvin

“Nosso primeiro projeto foi coordenado pelo meu marido, Maurício Martins Rodrigues [1961-2015], que era professor da Unifesp. Naquela época, dividíamos as tarefas entre nossos laboratórios”, recorda-se a biomédica Irene Soares, do FCF-USP. “Nosso insumo farmacêutico ativo era uma proteína recombinante [produzida artificialmente por meio de técnicas de engenharia genética]. As proteínas geradas em bactérias ficavam sob responsabilidade dele, enquanto eu trabalhava com as produzidas em levedura. Em 2015, ele faleceu e acabei assumindo a coordenação da pesquisa.” As proteínas desempenham papel fundamental nas vacinas, pois são elas que desencadeiam a resposta imunitária do organismo contra determinado agente infeccioso.

Soares explica que, desde o início, um dos grandes desafios enfrentados pelo grupo da USP foi criar um imunizante capaz de induzir anticorpos contra as três variantes principais do parasita (VK210, VK247 e P. vivax-like), todas em circulação no Brasil. “Nossa estratégia foi construir uma proteína quimérica [molécula criada artificialmente pela união de dois ou mais genes ou fragmentos de peptídeos de diferentes origens] em levedura contendo trechos de uma mesma proteína, a circunsporozoíta, encontrada nas três variantes de P. vivax”, diz. Circunsporozoíta é a principal proteína presente na superfície do esporozoíto, a forma infecciosa do protozoário Plasmodium.

“Não conhecemos outra vacina em desenvolvimento que contemple as três variantes de P. vivax. Nossa ideia é ampliar a cobertura do imunizante para que ele possa ser usado não apenas no país, mas também em outras regiões do mundo onde o P. vivax circula”, diz Soares. As três variedades do protozoário predominantes no Brasil também circulam em várias partes do globo.

Escolha do adjuvante
Depois da definição da proteína, outro ponto sensível do estudo foi escolher um adjuvante adequado para seres humanos – adjuvantes são substâncias que entram na composição dos imunizantes com a função de ampliar a resposta imunológica do organismo. “Muitos dos que havíamos testado não eram licenciados para essa finalidade. Também precisávamos considerar o custo, porque alguns seriam muito caros quando produzidos em escala maior”, lembra a pesquisadora da USP.

A escolha pelo adjuvante final só ocorreu há quatro anos. Naquela época, Soares fazia parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas (INCTV), coordenado por Gazzinelli, e levou os resultados da pesquisa ao grupo dele. A partir daí, surgiu a possibilidade de testar o adjuvante CTVad1, formulado à base de esqualeno (um tipo de lipídio), que havia sido empregado no desenvolvimento da SpiN-Tec, a candidata a vacina brasileira contra Covid-19 criada no CTVacinas. 

“Com esse novo adjuvante, conseguimos níveis mais altos de proteção do que havíamos observado, chegando a 100% no modelo experimental. Nos primeiros resultados, com outros adjuvantes, a proteção variava de 66% a 83%”, diz a biomédica da USP. “Foi um resultado excelente, mas é preciso ressaltar que estamos falando de experimentos em modelos animais. A proteção observada nesses testes não significa que a vacina terá necessariamente a mesma eficácia em seres humanos. Isso será avaliado nos ensaios clínicos.”

Em 2017, um artigo escrito com colaboradores, divulgado no periódico Frontiers in Immunology, revelou a formulação vacinal ideal para induzir a produção de anticorpos protetores contra a variante genética VK210 de P. vivax.

Em outro trabalho, publicado na revista Scientific Reports, em 2018, os cientistas da USP e parceiros da Universidade de Oxford, no Reino Unido, demonstraram a proteção contra as variantes VK210 e VK 247 em camundongos imunizados com duas proteínas recombinantes baseadas na circunsporozoíta. Finalmente, em 2021, o grupo publicou, também na Scientific Reports, resultados de pesquisa mostrando a proteção contra as três variantes genéticas.

A Vivaxin é desenvolvida com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Ministério da Saúde, por meio do Programa de Desenvolvimento de Inovação Local (PDIL).

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