
Iguaria apreciada por seu sabor suave, textura crocante e riqueza de nutrientes, a castanha-de-caju pode ser fonte de um composto biocompatível para aplicação em materiais dentários. Um grupo interdisciplinar de pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC) criou uma nova rota tecnológica para usar o cardanol, molécula encontrada no óleo extraído da casca da castanha-de-caju após ter sido submetida a altas temperaturas, no desenvolvimento de compostos odontológicos. Iniciada há dez anos, a pesquisa já gerou quatro artigos científicos e uma carta-patente concedida recentemente pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
O Ceará é o maior produtor nacional de castanha-(ou amêndoa)-de-caju, sendo responsável por 60% da safra de 115 mil toneladas de 2025, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No beneficiamento da amêndoa – a semente comestível da fruta –, ela é aquecida acima de 200 graus Celsius gerando um líquido escuro, o chamado LCC técnico. Esse óleo, um resíduo do processamento, é rico em cardanol, composto orgânico natural da classe dos fenóis.
Coordenado pelo químico industrial Diego Lomonaco, do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da UFC, o estudo demonstrou que o cardanol tem propriedades físico-químicas e estruturais que podem torná-lo um ótimo reagente para a produção de dessensibilizantes dentários, produtos empregados pelos dentistas para aliviar ou bloquear a dor e a hipersensibilidade dos dentes, e resinas e adesivos, utilizados em restaurações.
A pesquisa liderada por Lomonaco revelou que os materiais formulados com cardanol têm o potencial de melhorar a durabilidade e a eficácia dos tratamentos dentários. Isso ocorre, segundo o pesquisador, por vários motivos. Um deles é a forte interação entre o composto fenólico e o colágeno presente no dente, o que favorece a formação de ligações químicas cruzadas.
Principal componente orgânico da dentina, o colágeno desempenha papel fundamental na integridade estrutural desse tecido e na adesão dos materiais restauradores, ressalta a dentista Madiana Moreira, professora da Faculdade Paulo Picanço, de Fortaleza (CE), e uma das integrantes do grupo de pesquisa. “O colágeno dentinário favorece a infiltração do sistema adesivo e contribui para a adesão da resina à dentina.”
Outra característica das composições formuladas com cardanol, destaca Moreira, é sua capacidade de inibir um grupo de enzimas encontradas na dentina, as chamadas metaloproteinases de matriz, que com o passar do tempo degradam o colágeno, comprometendo a adesão das restaurações.
Repelente de água
Uma vantagem adicional proporcionada pelo cardanol aos compostos odontológicos, de acordo com os pesquisadores, é sua capacidade de repelir água – ou seja, sua hidrofobicidade. “Um dos grandes desafios em fazer uma restauração dentária é a umidade presente na boca, principalmente na saliva. Quando o adesivo ou a resina são contaminados pela saliva durante o procedimento, a adesão pode ser prejudicada”, explica a dentista.
Além disso, mesmo depois de realizada a restauração, os materiais odontológicos permanecem expostos à saliva. “Essa exposição pode provocar, ao longo do tempo, degradação hidrolítica, que corresponde à deterioração do material causada pela ação da água.” Daí vem o interesse crescente no desenvolvimento de materiais restauradores hidrofóbicos, capazes de manter suas propriedades e sua adesão mesmo em um ambiente constantemente úmido, como a cavidade oral.
Moreira fez o mestrado e o doutorado no Programa de Pós-graduação em Odontologia da UFC sob orientação de Lomonaco e do pesquisador Victor Feitosa, hoje professor da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. O foco do mestrado, encerrado em 2018, foi a síntese e a caracterização de um novo monômero (molécula que se liga a outras para formar um polímero) derivado do líquido da castanha-de-caju no tratamento de sensibilidade dentária. No doutorado, concluído em 2022, ela pesquisou o desenvolvimento de sistemas adesivos e resinas compostas a partir do LCC.

Um dos mais recentes artigos do grupo (Clinical Oral Investigations, 2024) mostrou que o monômero trimetacrilato de cardanol (CTMA), derivado do cardanol da casca da castanha-de-caju, pode substituir parcialmente o Bis-GMA em compostos odontológicos, mantendo propriedades mecânicas semelhantes e apresentando vantagens como menor absorção de água. Por exibir excelentes propriedades mecânicas, o Bis-GMA, produto derivado do bisfenol A, é hoje a molécula mais usada nesses materiais.
“Diversos estudos mostram que o bisfenol A é um disruptor endócrino”, alerta Lomonaco. Utilizar o cardanol em substituição ao Bis-GMA eliminaria essa preocupação toxicológica”, diz o pesquisador. Ainda não se sabe, contudo, quais são os impactos da liberação dessa substância na cavidade oral após a realização de restaurações com resinas ou outros insumos formuladas com ela.
Ensaios clínicos
Para Marcelo Sidou, professor da Associação Brasileira de Odontologia, seção Ceará, e do Departamento de Clínica Odontológica da UFC, o cardanol é um material com potencial para uso em diversas áreas na odontologia, especialmente em biomateriais e na odontologia restauradora. “Um diferencial desse monômero é que ele tem uma cadeia de carbono muito longa, uma característica excelente para biomateriais. Durante os estudos, o grupo conseguiu ver que ele tem interação com o colágeno, um diferencial em relação a outros componentes usados na odontologia, como o bisfenol A”, avalia Sidou, que não participou da investigação.
Apesar dos bons resultados da pesquisa da UFC, a chegada de novos compostos à base de cardanol nos consultórios odontológicos ainda deve levar um tempo. A validação definitiva dos achados depende da realização de ensaios clínicos. Até o momento, os estudos foram conduzidos somente em bancada de laboratório com dentes removidos na clínica odontológica da UFC. Vencida essa etapa, ainda terá de passar pelo teste de mercado.
“Pelos resultados das pesquisas e dos artigos já publicados, avalio o cardanol como um material promissor, mas é preciso uma curva de crescimento de evidências mais efetivas em relação à sua utilização na odontologia. Isso vai depender da realização de estudos clínicos, com pacientes reais”, destaca Raniel Peixoto, do Programa de Pós-graduação em Odontologia da UFC, que não integra a equipe de pesquisa.
Para dar continuidade ao trabalho, o grupo busca financiamento ou uma empresa que se interesse em licenciar a tecnologia. “Com recursos em mãos, estimamos que precisaremos de pelo menos cinco ou seis anos para termos um produto disponível para o mercado”, declara Lomonaco. “Esse é o tempo para fazermos os ensaios clínicos e finalizarmos o desenvolvimento tecnológico.”


