Como identificar serpentes da Mata Atlântica

Nova edição de guia ilustrado apresenta 155 espécies desses répteis rastejantes

Cobra-cipó (Chironius bicarinatus) investiga o ambiente com sua língua bífida
Cobra-cipó (Chironius bicarinatus) investiga o ambiente com sua língua bífida //Otavio Marques/Instituto Butantan

Em agosto aconteceu no Instituto Butantan, em São Paulo, o lançamento da segunda edição do guia Serpentes da Mata Atlântica, dos biólogos Otavio Marques, do Butantan, André Eterovic, da Universidade Federal do ABC (UFABC), e Ivan Sazima, aposentado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O livro lista e mapeia 155 espécies, das quais 150 contam com mais informações e fotos. Entre elas, seis da faixa litorânea que foram descritas depois de 2019, quando saiu a primeira edição, e 14 que mudaram de nome (e classificação). 

“O uso de dados genéticos floresceu muito nos últimos anos para estudos nessa área e permitiu um refinamento nas relações evolutivas”, explica Marques, sobre as espécies que passaram a pertencer a gêneros diferentes em relação a como tinham sido inicialmente descritas. “O guia está bem atual até hoje, mas amanhã tudo pode mudar”, brinca Eterovic.

Apesar das quatro décadas de parceria, desde a graduação, e dos cabelos brancos, os pesquisadores pareciam dois meninos maravilhados e divertidos ao contar a Poraquê sobre as publicações que fizeram juntos. A série de livros começou em 2001, com o primeiro guia da Mata Atlântica concentrado na serra do Mar – elaborado a partir de trabalhos feitos na Estação Ecológica Jureia-Itatins, no litoral sul paulista, durante o doutorado de Marques. “Resolvemos aproveitar os bichos mortos pelos guardas para promover educação para eles”, conta o pesquisador, considerando que os responsáveis pelos parques não sabiam reconhecer e lidar com as serpentes. 

Depois vieram os guias dos biomas: Pantanal, Cerrado, Caatinga, florestas costeiras da Mata Atlântica, Amazônia e Pampa. Na época, eram raros os guias da fauna brasileira. Eles avaliam que estimularam a produção de outros, para uma diversidade de áreas e de animais.

O grande diferencial dos guias feitos pela dupla, com colegas variados, é serem essencialmente visuais. Cada página dedicada a uma espécie tem a foto e uma série de ícones que descrevem vários aspectos de sua ecologia: serem diurnos ou noturnos, raros ou fáceis de avistar, se vivem no chão, nas árvores ou na água, como nascem os filhotes, que risco de acidente representam, entre outros aspectos. Eterovic foi quem fez os desenhos e, na época, testou com o filho de 7 anos para avaliar se funcionavam. Os guias também incluem mapas de distribuição reproduzidos do Atlas of Brazilian snakes, coordenado pelo biólogo Cristiano Nogueira, atualmente na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Esse volume de quase 300 páginas foi publicado em 2019 em edição especial da revista acadêmica South American Journal of Herpetology. “O atlas reuniu um conhecimento que não estava sistematizado”, avalia Marques.

Página do guia indica que espécie é diurna, perigosa e difícil de encontrar, entre outras informações
Página do guia indica que espécie é diurna, perigosa e difícil de encontrar, entre outras informações //Reprodução Serpentes da Mata Atlântica

Além dos avanços tecnológicos que facilitam as revisões de classificação usando DNA, a exploração de novos ambientes também contribui para o aumento de espécies conhecidas. Quando os três autores fizeram o primeiro guia, em 2001, só era conhecida uma espécie de jararaca exclusiva de ilha: Bothrops insularis, a jararaca-ilhoa, que vive apenas na ilha da Queimada Grande, no litoral paulista, a cerca de 35 quilômetros (km) de Itanhaém. Depois disso, foram descritas mais uma espécie no Espírito Santo, a jararaca-dos-franceses (B. sazimai, em homenagem ao pesquisador da Unicamp), encontrada na ilha homônima, e três em ilhas paulistas: a jararaca-de-alcatrazes (B. alcatraz), 35 km a sul de São Sebastião, a jararaca-de-vitória (B. otavioi, em homenagem a Marques), do arquipélago de Ilhabela e a mais recente B. germanoi, da ilha da Moela, no Guarujá. Há exemplares de todas elas nos viveiros do Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv) do Butantan, que podem ser visitados mediante agendamento com educadores. O espaço é lindo, aliás, com passarelas suspensas em meio à mata, vale o passeio.

A fauna de ilhas distantes costuma ser especial por essas terras serem isoladas, acessíveis apenas para quem voa, nada bem ou tem veículos que permitam transpor o mar. Cada espécie, portanto, é exclusiva de sua ilha. Por terem distribuição tão restrita, essas serpentes já estão ameaçadas de extinção quando são descobertas. “As fotos que mostramos podem ser as da tumba, porque fotografamos em áreas já degradadas e sua população pode não mais existir”, lamenta Marques. 

De acordo com a introdução do guia, só resta 8% da cobertura vegetal original da Mata Atlântica, que tem um nível considerável de endemismo – espécies que só existem ali. É o caso de 50% das serpentes. Os pesquisadores contam que as espécies arborícolas sofrem especialmente, porque circulam pela copa e pela zona intermediária das árvores em suas andanças cotidianas e, assim, precisam da estrutura da mata. “Na Jureia, metade das espécies são arborícolas”, diz Marques. Para sul e para norte, a proporção é menor.

Essa segunda edição foi financiada pelo prêmio obtido pela equipe brasileira no XPrize, uma competição internacional cujo desafio é catalogar o máximo possível de espécies em uma floresta sem entrar nela. A final aconteceu em dezembro de 2024 na Amazônia, e Marques coordenava a parte de vertebrados do grupo liderado pelo biólogo Vinicius Castro Souza, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). “Nossa equipe foi a que catalogou mais espécies, mas pelos critérios de pontuação ficamos em terceiro lugar”, conta Marques. As serpentes são muito difíceis de amostrar por meio de técnicas como análise de DNA ambiental, analisado a partir da água e do solo, por exemplo, e câmeras a bordo de drones que detectam calor. Por isso, não foram catalogadas na competição.

A grande satisfação da dupla é ver crianças interagindo com os guias de serpentes. Na infância, o que tinham como referência era a coleção Os bichos, publicada no início dos anos 1970 pela editora Abril, muito limitada em termos de informações mais específicas e detalhadas. “Hoje tem herpetólogos que começaram com o guia Serpentes da serra do Mar. É uma glória para nós”, diz Marques, sobre a formação de especialistas em répteis e anfíbios. Ele afirma que a editora Ponto A está aberta a doar exemplares dos guias para escolas, bibliotecas, gestores ambientais e outros interessados. Basta pedir. Eles também estão à venda na lojinha do Butantan, onde fazem bastante sucesso, segundo os autores.

Além de presencialmente na loja do Instituto Butantan, o guia Serpentes da Mata Atlântica pode ser adquirido no site da editora Ponto A, por R$ 75

  • A jararaca-de-vitória (Bothrops otavioi) é exclusiva da ilha Vitória, no litoral norte paulista //Fernanda Centeno
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