
Para ser cientista de peso – do tipo que faz uma contribuição relevante, deixa sua marca e quem sabe até ganha um prêmio Nobel – é preciso… se divertir, dedicar-se a algum hobby e muito mais. O químico Aldo Zarbin, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), selecionou os atributos fundamentais e reuniu no livro O fazer ciência em 10 palavras ou Como se constrói o conhecimento (Editora ICH, 2025, 107 páginas, R$ 59).
A inspiração para o texto, e o fio condutor, é a música “Ilustríssimo senhor Ciro Monteiro ou receita pra virar casaca de neném”, composta por Chico Buarque em resposta a receber do amigo (e também músico) uma camisa do Flamengo para sua recém-nascida primeira filha, Silvia. Quem se liga no lado futebolístico de Chico Buarque sabe que ele é ferrenho torcedor do Fluminense. A partir da história, deliciosamente contada no início do livro, o químico assumidamente “chicólatra” traça paralelos entre os valores presentes na canção e aqueles fundamentais na prática científica: criatividade, sagacidade, determinação, sabedoria, simplicidade, divulgação, ética, oportunidade, representatividade e paixão.
O livro é uma boa inspiração para cientistas em início de formação, mas também tem agradado a curiosos que não estudam nem seguem carreira em ciências, segundo declarou o autor a Poraquê. Pessoas interessadas em um sentido mais amplo. Vale tirar uma tarde e ler em uma sentada. Você encontrará exemplos fascinantes de grandes momentos da história da ciência e poderá se inspirar com uma variedade de citações.
Aqui vão leves pinceladas, para atiçar a curiosidade. De acordo com Zarbin, a criatividade é a primeira condição para resolver um problema ou propor algo novo. Ele ressalta que bons cientistas são apreciadores das artes, e encontram nelas inspiração para a maneira como pensam a ciência. O químico, aliás, adora artes plásticas, literatura e música.
Por meio de exemplos de grandes descobertas da história, o leitor verá como a sagacidade permite tirar um entendimento novo a partir de alguma observação inesperada. Nada dá frutos, porém, sem a determinação de continuar a busca mesmo quando tudo dá errado ou a descrença dos colegas parece uma muralha intransponível.
A sabedoria pode envolver a percepção de perigos de certas descobertas científicas e a busca por tornar bons avanços disponíveis para a maior parte das pessoas. A simplicidade significa, ao mesmo tempo, tratar questões complexas partindo de seus elementos menores e também deixar a soberba de lado.
A ciência não é nada se ficar restrita ao laboratório, à sala ou à cabeça do pesquisador. Buscar a divulgação em periódicos especializados, apresentar resultados em congressos e contribuir para que o conhecimento seja disponibilizado em comunicação jornalística é, portanto, fundamental. Se às vezes falta ética na ciência, felizmente o meio acadêmico tem suas formas de fiscalizar e punir desvios.
Oportunidade depende, em grande parte, de estratégias mais amplas – como políticas de Estado para priorizar a atividade de pesquisa. Para isso, Zarbin (que também é vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC), ressalta a importância de entidades científicas que garantam a representatividade.
Por fim, nada se faz sem paixão. Afinal, ciência dá trabalho e não cabe no horário comercial. Ao mesmo tempo em que o cientista pode esquecer do tempo no laboratório e se concentrar em um problema em meio a um almoço de família, é importante que também cultive outros amores, talvez um hobby. No caso do autor, tocar violão é o principal, mas esportes como o basquete também têm seu lugar.


