
“Quando vimos que seria a Rota a entrar, imaginamos que não daria bom. Não houve conversa, avisos ou negociações. Só um grito: ‘A morte chegou’. Não tínhamos reféns. […] Além de mortos e feridos, temos aqueles que sobreviveram, torturados por passar em um corredor polonês, sendo espancados e vendo seus companheiros serem assassinados.”
O relato é do educador e ativista Maurício Monteiro, um dos sobreviventes do massacre do Carandiru, e integra a exposição Carandiru: Lugar de memória. Inaugurada em setembro, a mostra fica em cartaz até o início de 2027 no Memorial da Resistência, no centro de São Paulo.
O massacre ocorreu em outubro de 1992, na Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru, na zona norte da capital. Na ocasião, após uma briga entre detentos, os policiais militares invadiram o presídio e 111 presos foram mortos, segundo o processo criminal. O episódio se tornou o mais sangrento da história carcerária brasileira.
Com fotografias, mapa, depoimentos e objetos, a mostra é uma iniciativa conjunta do coletivo Memórias Carandiru, formado por sobreviventes do massacre; do Grupo de Pesquisa em Direito e Violência de Estado, da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Direito SP); e da equipe do Centro de Documentação do Memorial da Resistência.
“A ideia foi reunir nossas pesquisas realizadas ao longo dos últimos anos”, explica a jurista Maíra Rocha Machado, coordenadora do grupo da FGV, criado em 2023 e que tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “A exposição é uma forma de alcançar um público mais amplo do que aquele que lê nossos artigos acadêmicos, incluindo, por exemplo, estudantes do ensino médio.”
Luz sobre a violência
Há 15 anos, Machado e integrantes do grupo estudam o massacre do Carandiru. “Além de ser um caso emblemático, ele ajuda a iluminar a violência de Estado em regimes democráticos, sobretudo a violação sistemática de direitos produzida pela polícia e pelas prisões”, diz a pesquisadora.
Em 2026, o grupo coordenado pela jurista, composto majoritariamente por mulheres, publicou na revista científica State Crime Journal um artigo que compila os resultados das pesquisas que realizou até agora. “O massacre do Carandiru foi tratado por muito tempo como uma questão do direito penal”, prossegue Machado. “Porém, as pesquisas nos mostraram como é fundamental observar esse acontecimento a partir de outras áreas do Direito, como o civil, o administrativo e o urbanístico, e também de outros campos, como a medicina legal e antropologia forense.”
Ao longo desse tempo, as pesquisadoras sistematizaram e analisaram mais de 90 mil páginas de documentos relacionados ao caso, além de outros registros, como reportagens e produções literárias. “Recentemente, disponibilizamos duas bases de dados que podem auxiliar outros pesquisadores e demais interessados”, conta a jurista.
Uma delas compila fotos dos Diários Associados, que estavam no Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp), com imagens da Casa de Detenção de São Paulo entre as décadas de 1950 e 1970. Outra base reúne os laudos de lesão corporal. “A memória do massacre ficou muito associada às 111 mortes, mas houve também sobreviventes submetidos a diferentes formas de tortura”, observa Machado.
Em artigo publicado no ano passado na Revista Direito e Práxis, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o grupo mostra que os 104 laudos de exame de corpo de delito representam apenas uma parcela dos feridos.
“Identificamos 99 pessoas que aparecem em outros documentos como feridas, mas que não foram periciadas e, portanto, não foram formalmente reconhecidas como vítimas de lesão corporal no processo criminal”, relata Machado. “Estudar esses documentos não significa apenas perguntar o que aconteceu no massacre do Carandiru, mas também indagar como o Estado produziu os registros por meio dos quais hoje sabemos, ou deixamos de saber, o que aconteceu.”
Prisioneiro 84.901
Um dos integrantes do grupo de pesquisa é Monteiro, mencionado no início desta reportagem. Graduado em gestão ambiental, ele atualmente cursa educação física e comanda o canal Prisioneiro 84.901, no YouTube, onde compartilha relatos de sobreviventes e discute políticas públicas para o sistema prisional. Condenado por homicídio, Monteiro passou 16 anos preso, sendo dois deles no Carandiru.
No final do ano passado, estudantes da FGV Direito SP que integram o Centro de Assistência Jurídica da instituição em parceria com o grupo Direito e Violência de Estado impetraram uma ação em nome de Monteiro. Trata-se de um pedido de indenização relativo a atos de tortura praticados por agentes do Estado durante o massacre.
“A ação foi apresentada 33 anos após o massacre e, com base em nossa argumentação jurídica, a Justiça reconheceu que o caso não prescreveu. Para isso, foram aplicados ao processo precedentes relativos a crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura militar [1964-1985]”, explica Machado. “Ainda não temos a sentença final, mas a decisão reforça o direito dos sobreviventes do massacre de buscar reparação, independentemente do tempo transcorrido.”
Cidade murada
A Casa de Detenção de São Paulo começou a funcionar em 1956, sendo desativada em 2002. Situada no bairro do Carandiru, foi construída no terreno da Penitenciária do Estado, inaugurada na década de 1920. “A Casa de Detenção era uma espécie de cidade murada, com cerca de 8 mil pessoas, entre presos e funcionários”, conta a historiadora Viviane Borges, da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

Borges é autora do recém-lançado Carandiru, patrimônio prisional (Editora Letra e Voz), livro derivado de pesquisa financiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). Na obra, ela discute o conceito de patrimônio prisional a partir do tombamento do complexo, iniciado em 1997 e concluído em 2020 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).
Nesse ínterim, cinco pavilhões foram demolidos em 2002 e 2005, incluindo o Pavilhão 9, onde ocorreu o massacre. No local foi criado o Parque da Juventude, inaugurado parcialmente em 2006. Os dois pavilhões remanescentes, 4 e 7, abrigam hoje escolas técnicas.
“No livro, busco compreender como aquele espaço marcado pela violência foi transformado, disputado e ressignificado ao longo do tempo, e o que essas disputas revelam sobre nossa relação com o patrimônio prisional e as memórias do encarceramento”, diz a historiadora. “No caso do Carandiru, a destruição dos vestígios arquitetônicos alinha-se, por exemplo, ao apagamento de culpados.”
Borges coordena o projeto de extensão Arquivos Marginais, que criou em 2011 na Udesc para pesquisar instituições de confinamento, como presídios e hospitais psiquiátricos. “Esses lugares se inserem na categoria dos patrimônios difíceis ou sensíveis”, explica a historiadora Cristina Meneguello, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), uma das organizadoras do Dicionário temático de patrimônio: Debates contemporâneos (Editora Unicamp, 2020). “Patrimônio não é apenas um relicário de coisas belas. Ele também existe para nos lembrar de questões incômodas.”
No caso das penitenciárias, a preservação da memória pode contribuir, por exemplo, para debater as condições do sistema prisional. “Decidir o que fazer com essa memória é um desafio. Não existe uma fórmula: pode ser um memorial, um museu, um site”, conta Borges. “Há, por exemplo, um grupo de instituições filiadas à Coalizão Internacional dos Sítios de Consciência que se propõe a ligar violações ocorridas no passado aos movimentos atuais por direitos humanos.”
Para a historiadora, é fundamental envolver as pessoas diretamente afetadas nesse processo, como detentos e funcionários, na construção de uma memória que não seja feita apenas de cima para baixo, mas com a participação desses sujeitos. Meneguello ressalta, porém, que nem todos os que tiveram alguma relação com esses lugares desejam preservá-los. “É uma questão complexa. A prisão comum é um lugar complicado, que marginaliza quem passa por ela. As pessoas, quando saem, podem não mais querer ser ligadas a esse cenário”, observa.
O Carandiru é uma exceção, na avaliação de Borges. “Ao longo dos anos, passou a existir uma reivindicação de memória e não apagamento por parte dos sobreviventes e familiares, reiterada especialmente a cada aniversário do massacre”, afirma. “Além disso, o Carandiru foi apropriado pela cultura pop: virou livro, filme e rap. Isso faz com que muitos sobreviventes queiram contar sua história.”
Massacre na Argentina
Algo semelhante, segundo a pesquisadora, ocorre em relação ao Cárcel de Devoto, na Argentina, onde aconteceu o massacre do Pavilhão Sétimo, em 1978. Na ocasião, uma violenta repressão das forças de segurança, seguida de um incêndio, deixou 65 detentos mortos.
Em 2014, o episódio foi reconhecido como crime contra a humanidade pela Justiça do país. No ano passado, o tribunal adotou outro entendimento, classificando os acontecimentos como graves violações dos direitos humanos, mas mantendo sua imprescritibilidade. Na mesma decisão, dois ex-agentes penitenciários foram condenados a 25 anos de prisão.
Atualmente, Borges desenvolve a pesquisa de pós-doutorado “Do cárcere ao museu: Prisões, patrimônio e memória na América Latina”, na Universidade Nacional de San Martín (Unsam), na Argentina. Dentre os espaços pesquisados figura o Cárcel de Devoto, que está em processo de desativação e pode ser demolido. “A transferência dos presos para outra unidade prisional ameaça a continuidade do Centro Universitário Devoto [CUD], que constitui uma experiência muito significativa de produção de conhecimento no cárcere”, finaliza a historiadora.


