
A organização ambientalista The Nature Conservancy (TNC) lançou o relatório “Peixes Esquecidos da Amazônia”, que traz informações sobre as 2.700 espécies de peixes de água doce da bacia amazônica e sua relação com os ecossistemas aquáticos, com as pessoas e com a floresta. Resultado de um trabalho colaborativo de mais de 50 especialistas de instituições de vários países, o documento reúne e sintetiza o conhecimento disponível sobre as espécies, pela primeira vez abrangendo toda a extensão da Amazônia, e combina evidências científicas com conhecimentos ecológicos tradicionais de povos indígenas e comunidades locais.
“A biodiversidade de água doce é a que mais está sofrendo declínio, segundo a última avaliação global sobre biodiversidade. Os peixes que habitam os rios foram esquecidos pelas políticas e estratégias de conservação”, disse ao podcast Hora da Ciência, da revista Poraquê, a bióloga Fernanda Silva, especialista em conservação da pesca de água doce da Amazônia da TNC e coordenadora do relatório. “O objetivo é ampliar o conhecimento público sobre os peixes da Amazônia a fim de protegê-los.”
Esse é o quarto relatório sobre peixes esquecidos (forgotten fishes) lançado nos últimos anos. Sob a coordenação de outra organização ambientalista, a WWF, já foram publicados documentos semelhantes sobre o estado geral dos peixes do planeta, sobre as espécies do rio Mekong, no sudeste da Ásia, e sobre os peixes de cursos d’água africanos. “Como a TNC tem ações de conservação de peixes na Amazônia, fomos convidados pela WWF para produzir esse quarto relatório e optamos por fazer um trabalho colaborativo, encomendando a cientistas sínteses sobre as espécies. O documento também dá voz aos habitantes da Amazônia, com testemunhos de indígenas e de moradores de comunidades locais”, explica Silva.
Importância cultural
O relatório evidencia a enorme diversidade de peixes da bacia amazônica, que é o maior sistema fluvial do mundo. Há desde espécies como o pirarucu, que pode atingir 3 metros de comprimento, até os neons tetras, peixes minúsculos e coloridos que parecem joias; dos bagres que migram 11 mil quilômetros dos Andes ao Atlântico até os poraquês, peixes elétricos que caçam em bando (ver quadro abaixo); de piranhas a espécies que vivem enterrados na lama da floresta. Das 2.700 espécies de peixes da Amazônia, 144 foram incluídas na lista de ameaçadas de extinção da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). “Quando comparado a outras bacias, o quadro da Amazônia tem uma situação ainda confortável. Temos ecossistemas bastante saudáveis e conectados por unidades de conservação e terras indígenas, muitos rios de fluxo livre. A situação da Amazônia ainda é boa e o chamado é esse: temos a oportunidade de conservar esses ecossistemas funcionais e precisamos fazer isso antes que a janela de oportunidade feche, pois há uma série de pressões, incluindo os efeitos das mudanças climáticas.”
Para além da conservação, o relatório mostra que os peixes da Amazônia têm grande importância cultural. “Nos testemunhos dos habitantes, há histórias curiosas. Um comunitário contou que o avô, quando tomava ayahuasca, tinha visões de uma cobra que contava onde os peixes iam entrar. Há povos indígenas que acreditam que um de seus ancestrais era um peixe, que foi pescado e veio viver em terra firma. Os peixes fazem parte da identidade cultural, dos sistemas alimentares e das histórias das pessoas”, explica Silva.
O biólogo Adalberto Val, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que não participou da elaboração do relatório, observa que a diversidade de peixes é apenas a parte visível de uma riqueza biológica maior. “Por trás dessa variedade de espécies existe outra diversidade, menos evidente, mas igualmente importante: genética, fisiológica, bioquímica e comportamental”, explica ele, um especialista em peixes tropicais de água doce. “Cada espécie reúne um conjunto singular de soluções construídas ao longo da evolução para respirar, alimentar-se, reproduzir-se e sobreviver em ambientes que podem diferir profundamente em temperatura, disponibilidade de oxigênio, acidez, composição química e dinâmica hidrológica. É essa diversidade de estratégias que permite aos peixes ocupar a enorme variedade de ambientes aquáticos da Amazônia.”
O mais preocupante, segundo Val, é que apenas uma parte dessa riqueza biológica e de seu funcionamento é conhecida. “Podemos perder espécies, populações e adaptações únicas antes mesmo de compreendê-las. E essa perda não é apenas biológica. Os peixes sustentam processos ecológicos fundamentais e estão profundamente ligados à segurança alimentar, à economia, à cultura e aos modos de vida das populações amazônicas. Conservar essa diversidade significa, portanto, proteger muito mais do que uma lista extraordinária de espécies: significa preservar processos evolutivos e ecológicos, conhecimento e possibilidades futuras, além de uma das bases da vida e do desenvolvimento humano na Amazônia.”
O que o relatório conta sobre os poraquês
O peixe amazônico que dá nome a esta revista utiliza a eletricidade para ataque e defesa
“As espécies do gênero Electrophorus — os poraquês — são conhecidas pelas fortes descargas elétricas que produzem. Uma delas, Electrophorus voltai, pode gerar até 860 volts, a maior potência bioelétrica já registrada em qualquer animal. Esses peixes utilizam a alta voltagem tanto para ataque quanto para defesa. Pesquisadores descobriram recentemente que os poraquês podem, em algumas situações, caçar em grupo para capturar cardumes de pequenos peixes, produzindo descargas em sincronia para atordoar várias presas ao mesmo tempo. Esse comportamento sugere um nível inesperado de coordenação social em animais antes considerados solitários. Embora seus choques elétricos raramente sejam fatais para humanos, eles podem causar ferimentos graves, e há casos de pessoas que se afogaram após serem imobilizadas pela descarga elétrica dos poraquês. Não surpreende, portanto, que os poraquês sejam amplamente temidos e respeitados pelas populações amazônicas.”


