Nobel de Química vai para a produção de moléculas espelhadas

Francês Henri Kagan e japonês Kenso Soai dividem o prêmio, que reconhece uma técnica fundamental para a indústria farmacêutica

Estudos dos vencedores exploraram o fenômeno da quiralidade das moléculas
Estudos dos vencedores exploraram o fenômeno da quiralidade das moléculas // Johan Jarnestad/The Royal Swedish Academy of Sciences

Se você já tentou pôr um sapato direito no pé esquerdo, sabe que não funciona. Mas enquanto as fábricas de calçados já tenham isso resolvido há muito tempo, a indústria química demorou um pouco mais para conseguir produzir as formas desejáveis de um composto espelhado. O Prêmio Nobel de Química, anunciado nesta quarta-feira (7/10) em Estocolmo, na Suécia, reconheceu as descobertas do francês Henri Kagan, professor emérito da Universidade Paris-Sud (Orsay), e do japonês Kenso Soai, da Universidade de Ciências de Tóquio, fundamentais nessa área. Em linguagem mais técnica, a láurea se justifica “pela descoberta de efeitos não lineares e autocatálise na síntese orgânica assimétrica”. Eles dividirão em partes iguais o valor de 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,14 milhões) e cada um receberá um diploma e uma medalha com a efígie do criador do prêmio, o químico sueco Alfred Nobel (1833-1896).

A maior importância desse fenômeno de as moléculas poderem formar-se de forma espelhada (a “quiralidade”, termo cunhado a partir do radical grego para “mão”, em analogia a como as mãos esquerda e direita são imagens opostas) está no seu uso farmacológico, já que cada forma é reconhecida pelo organismo como diferente. Um caso emblemático é o da talidomida, substância que nos anos 1950 e 1960 foi usada para combater enjoo em gestantes. Uma das formas espelhadas provocava o efeito desejado, enquanto a outra foi responsável pelo nascimento de milhares de bebês com graves malformações pelo mundo todo. “Uma imagem é medicamento, a outra pode acabar com a vida”, resume o químico Emilio de Lucca Júnior, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

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A questão era como escolher entre as formas. Em 1986, Kagan mostrou que bastava pôr no tubo de ensaio uma quantidade ligeiramente diferente de cada uma das formas, para que a mais abundante predominasse cada vez mais à medida que as reações químicas se desenrolavam. Alguns anos depois, em 1995, Soai partiu de uma solução com um excesso de 2% de uma das formas e chegou a uma predominância de 87%. Mais alguns anos e, em 2003, ele propôs a reação que ficou conhecida com seu nome, na qual em três etapas era possível conseguir uma amostra pura, apenas com uma das formas, a partir de uma solução mista. O experimento parece simples e até fortuito, mas teve um impacto enorme e foi classificado como “o mais legal na química orgânica” pelo químico sueco Peter Somfai, integrante do comitê que seleciona os ganhadores, por ocasião do anúncio do prêmio.

“Estamos todos felizes e surpresos com esse anúncio”, resume a química Fernanda Finelli, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a respeito de seus colegas. O desenvolvimento de reações assimétricas é justamente uma linha de frente do Laboratório de Síntese Orgânica, que ela lidera. Em sua avaliação, há consenso na área de que a contribuição desses pesquisadores é fundamental e que eles são merecedores do Nobel. Ela explica que é como se a presença de mais mãos direitas em um ambiente levasse à produção predominante de mãos direitas. O chamado ambiente quiral, que promove uma das formas, é o que está por trás da reação de Soai. “Mesmo uma assimetria muito pequena já funciona como catalisador”, explica.

Francês Henri Kagan e japonês Kenso Soai, os vencedores deste ano
Kagan e Soai, os vencedores deste ano por estudos sobre a quiralidade de moléculas // Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach

A surpresa está justamente no aspecto fundamental: as técnicas mais avançadas usadas hoje na indústria farmacológica já receberam o Nobel. Em 2001, o japonês Ryoji Noyori e os dois norte-americanos William Knowles e Barry Sharpless foram premiados por trabalhos com síntese assimétrica catalítica. A ausência de Kagan, inclusive, gerou alguma polêmica na época – as regras do Nobel permitem até três laureados em cada categoria. Em 2021, foi a vez do alemão Benjamin List e do escocês David MacMillan, radicado nos Estados Unidos, serem reconhecidos pelo desenvolvimento da organocatálise assimétrica. “MacMillan vem desenvolvendo técnicas de fotocatálise e reações em sistemas biológicos que podem candidatá-lo a outro Nobel daqui a alguns anos”, avalia Finelli, que já trabalhou em seu laboratório. A escolha deste ano é como um retorno às origens do campo. 

A assimetria da vida
Enquanto a discriminação química oferece desafios, o sistema sensorial apurado pela evolução percebe algumas diferenças. Emilio de Lucca exemplifica com o composto conhecido como limoneno: uma das formas tem cheiro de limão e a espelhada, de laranja.

A natureza está no centro do interesse do químico da Unicamp, que se dedica à síntese de moléculas existentes na natureza – a chamada química de produtos naturais. “Meu trabalho envolve pôr uma ligação em um lugar da molécula e não em outro, e ser capaz de distinguir e selecionar entre as formas diferentes.” 

Enquanto trabalha com objetos minúsculos, ele se entusiasma com o quadro mais amplo. “Mais do que a catálise assimétrica, esse Nobel fala de uma das grandes questões que nos levam a entender como a vida surgiu na Terra”, reflete Lucca. Isso porque os sistemas orgânicos reconhecem apenas as configurações em “mão direita” dos açúcares, e a versão esquerda dos aminoácidos. 

Como isso ficou determinado é um dos grandes mistérios da ciência. Dá para imaginar, a partir dos experimentos de Kagan e Soai, que uma diferença mínima na quantidade de moléculas de um determinado tipo, quando a vida estava se formando na Terra primordial, pode ter se propagado para esse tipo se tornar hegemônico. “Não vamos ter a resposta com esse trabalho”, reconhece o químico. “É desses assuntos em que a pergunta é mais legal que a resposta.”

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